O Nós, da questão...





Acabavam de se conhecer! Era tudo confuso e maravilhoso. Paixão e encantamento envolvendo almas e corpos.

Batalhadoras comuns da sociedade, não tão sociais, pois eram duras, mas nada disso importava, iam ficar juntas. Cada qual pegou os seus trapinhos. Alugaram uma casa e partiram para a vida feliz!
Os tempos eram difíceis. Uma era empregada de um escritório de contabilidade, a outra massagista recém chegada de Santos. Ambas novas, Mel contava com 31 anos, Beínha com 26. A vida mal começava! O amor que as enlevava fazia com que a labuta fosse pequena, aliás, tudo era pequeno nesse momento e grande, já era o respeito de uma pela outra!
Beínha conversando com Mel expôs que não poderia mais continuar em sua profissão. Mel não era exatamente uma figura feminina, e por conseqüência, assim que se assumissem como amigas morando junto, Beínha com certeza perderia suas clientes. Definitivamente: lésbica e massagista, não são a melhor combinação! Nada melhor que uma boa prosa sincera. As duas se beijaram.
Beínha arranjou emprego numa transportadora, Mel recebeu a proposta de comprar o escritório o qual ela era empregada. Lá se iam três meses de união apaixonada. Lá se ia confirmando que as duas poderiam vencer! Contas refeitas. Orçamento apertado. Arroz de segunda com carne de segunda, feijão nem sempre, não lhes apetecia o paladar, ovos e legumes sempre, (compravam naqueles feirões, bem barato) só a cervejinha não podia faltar, segundo as duas: nem só de pão e água vivem duas mulheres!
Um ano passou rápido. No segundo as duas chegaram à conclusão que embora o escritório não estivesse pago, poderiam dar uma guinada em suas vidas.

Beínha era muito jeitosa com artesanato. Então estava feito. Saíram pelas ruas de Salto a procura de um lugar para a nova empreitada.

Bem no centro da cidade Beínha notou que em uma certa entrada de garagem não tinha marcas de pneus! Não deu outra! Alugaram aquele espaço pequeno de chão acimentado, teto baixo por conta do piso da casa e o Porão nasceu! Sem dinheiro e só com criatividade, montaram uma loja... Prateleiras feitas de caixas de uva, que Mel havia desmontado, lavado na soda cáustica e remontadas. No lugar do balcão, uma velha escrivaninha onde Beínha aproveitaria para trabalhar em seus artesanatos. A inauguração foi linda! As duas no fim da noite sentadas e exaustas no meio da garagem, brindavam à conquista!
O escritório foi se pagando. O Porão foi indo . No final de ano Beínha já tinha feito o balanço, lucro o Porão não deu, mas as vendas cresciam progressivamente mês a mês. O espaço era muito pequeno dificultando a diversificação de produtos. Tinham apenas duas saídas: continuar como estavam ou alçarem vôo! Resolveram avoar!
A casa onde elas moravam em Itu, abrigava também o escritório, que mal faria se só para começar, abrigasse também a loja? Dito e feito. Em um final de semana lá estava montada a loja. Mudou de nome. O Porão fora enterrado, agora vingava algo beirando ao Doce! Mais uma vez, a vida cobrava custos e cortes! E a vida tinha suas razões.
O escritório estava pago! Outra comemoração. Novos triunfos!
Entre os triunfos vieram as lutas! Mel ainda tinha que se forma em contabilidade, era lei: só podia ser dono de escritório quem fosse contador, então era melhor uma se só se formar. Decidido. Lá vai Mel para um curso técnico depois de ter cursado uma faculdade. Mas e daí. Era a vida que a chamava para novos rumos! Outro sim, Beínha queria mesmo é ficar fazendo o artesanato o resto da vida ao lado de Mel, ademais, o que era de uma era da outra! Tudo tratado, tudo certo.
O tempo com seus problemas absorveram o casal. Lutas diárias foram travadas com a falta de experiência no comércio e com os problemas do escritório. As tarefas se dividiam. Beínha além de confeccionar os produtos para a loja, também assumia as funções de dona de casa. Cozinhava, lavava, e nos finais de semana fazia a feira de artesanato para aumentar a renda da loja, Mel fazia faxinas ás sextas-feira. Alguns anos transcorreram. Pedras normais no caminho das duas. Umas maiores outras menores, mas sempre pedras. Ainda se baseando na economia, compraram uma bela chácara. Construíram então o seu lar doce lar! Tudo bem que levara quatro anos para essa realização. Mas estava lá! Uma casa linda toda branca com portas e janelas de vidros enormes, sem falar no avarandado de duas águas. Construída no alto do terreno já era avistada logo que se entrava no condomínio. Sim, condomínio horizontal! Lindo no meio do verde. Agora a vida era bela. Tinham construído um patrimônio sólido. A “Doce” loja, agora ocupava um salão de 12 m de frente por 10m de fundos numa das ruas principais da cidade, com empregados e encargos que não acabavam mais! O escritório já era parte integrante do comércio local empregando e progredindo. Linhas telefônicas, uns dois ou quatro terrenos em outra cidade, carros.....e muitas tarde de churrascada com amigos naquela varanda beijada pela brisa e visitada freqüentemente por pássaros, borboletas e cigarras .
A vida se acomodava. Mas parece que as coisas não gostam de se acomodar. A loja teve que ser finalizada. Anos de muamba do Paraguai institucionalizada, mais a entrada das lojas de 1, 99, fizeram com que a doce loja procurasse seu fim. Beínha ficou sem rumo, 14 anos tendo a loja sentiu–se órfã de filho! Se não tivesse forças para superar o fracasso que achava ter construído, teria caído em depressão. Mel? Ajudou claro, mas não tanto quanto os olhos de Beínha imploravam.
Depois de conformada com a perda Beínha, voltou a questionar como já não fazia há 15 anos atrás. Movida por conflitos interiores percebeu que as coisas haviam estagnado. Sua vida, seus sonhos, talvez a vida e os sonhos de Mel também!
O amor entre elas virara uma rotina de atenções pequenas, gestos desprovidos de paixão. O olhar perdido de Mel nada dizia. O olhar inquisidor de Beínha não se fazia enxergar!
Era o fim. Mas antes do fim conversaram muito. Mel não aceitava o fim. Beínha não aceitava o não. Choro, muito choro. Muitas palavras de carinho e respeito entre as duas, afinal de contas, não se saí de uma relação de 16 anos assim, tudo tinha que estar bem expressado.

Tudo foi expresso. Acordado. Palavras de comprometimentos!
Beínha ia embora para bem longe recomeçar a vida. Mel iria ficar se comprometendo a acertar as pendências financeiras com o tempo, segundo o combinado.
Beínha foi. Levaram na bagagem expectativas e medos. Em um ano só lhe sobrou a desilusão, a certeza que financeiramente nada haveria de receber de Mel.
Mel ficou lá em Itu, lá com a casa, lá com o escritório, lá com o carro...telefones...terrenos...as cachorrinhas....com as cigarras, as borboletas...os amigos? Não sei? Depois disso não as vi mais.
Só sei que se essa mal fadada lei fosse votada (Parceria Civil), Beínha estaria hoje feliz por ser respeitada por sua companheira, e nem sequer passaria por sua cabeça, que Mel não a respeitava, só cumpria a lei.
Ah! Mas que Beínha seria hoje a cega mais feliz do mundo, ah seria!

 

 

QUANDO A SEPARAÇAO É INEVITÁVEL

 

Por conta da história de Mel e Beinha,  recebi vários e-mails onde a constante era:
“- Não cumpri com minha parte...”
Parece que na hora da perda os sentidos femininos se equiparam aos de certos homens, que fazem de tudo para não proteger sua ex-mulher e filhos após a separação.
Uma pena...
Acredito que quando começamos uma relação não determinamos limites para nossos sentimentos. A gente não sabe como o tal amor começa, não definimos quando ele vai acabar...
Sim, o fogo da paixão tende a se dizimar. As emoções mais fortes vão dando lugar à calmaria dos sentimentos. Com o passar dos anos a cumplicidade e o companheirismo se tornam os maiores aliados para a esperança do amor eterno, e, com condução apurada e muito trato, podemos realmente findar nossos dias com muito amor e carinho ao lado dessa companheira que, cresceu e nos fez crescer durante a caminhada em conjunto.
A convivência é uma troca de experiências, uma jornada de aprendizado.
Sou completamente contra quaisquer desculpas quando se trata do não cumprimento do dever para com as ex-companheiras.
Não existia entre o casal cumplicidade? Ambas não queriam o mesmo; progresso financeiro gerando bem estar ao casal?
Entre um casal existe a divisão de tarefas por afinidades e quando se trata de dinheiro, a divisão é por suscetibilidade?
Todos os planos construídos com bases na união eterna caem por terra quando se descobre o antagonismo de coexistência?
Nessa prática de vida rica em experiências ninguém entra pensando que daqui há uns três, cinco ou vinte anos, o relacionamento vai acabar e que o patrimônio conseguido pelas parceiras será de tanto por tanto, por “cabeça”.
Quando se dá a separação, financeiramente há perdas, é uma pena, uma dor. A sensação de fracasso é inerente ás duas mas, se a divisão da perda e do pouco lucro for considerada, acho que no final das contas vai sobrar dividendo...
Será que foi intencional aquele carinho em forma de um bolo gostoso para se ajuntar como adendo numa boa partilha de bens?
Será que de repente não houve dias em que aquela do menor capital, não perdeu o sono tentando achar uma solução, a melhor saída nos negócios, sem incomodar aquela que entrou com o capital maior?
Será que aquela boa comidinha feita durante os finais de semana foi feita pensando que, caso houvesse a separação, isso ia ser levado em conta?
Quem sabe se aquela roupa lavada com carinho e apreço foi pensando que poderia um dia tirar partido daquela ação?
Os elogios que sempre brotaram dos lábios daquela outra, que entrou com menos capital, vinham à tona do audível porque isso seria um bom álibi para no final da separação se dar bem?
Mas do que estamos tratando?
A vida nos traz pelas ondas do destino uma companheira. Começa a labuta para uma vida feliz e em conjunto. Planos, sonhos... e depois, quando a separação é inevitável, nossa companheira se torna apenas um empreendimento que não deu certo?
Pelos e-mails que recebi, tenho percebido que aquela que entra com o menor capital sempre se mata em cotas maiores de prestação de serviço e infelizmente, a outra, que entra com o capital maior, se acha na posição de nada resolver financeiramente, pois foi a que mais deu.
Como contabilizar anos de afeto regado a tanto trabalho?
Não minhas amigas! O respeito pelo ser humano que sonhou e vivenciou problemas ao nosso lado, não pode ser igualado a um empreendimento que não deu certo, e por A mais B, resolve-se que a perda menor será de quem violar a lei preciosa do Karma, a lei da causa e efeito.

 

2002














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