
O Preconceito nosso de cada dia...
Quando
caímos no clichê:
Sair do armário,
deixamos nos levar por nossas opiniões radicais esquecendo que entre
nós, mulheres lindas, modernas e atuantes, existem nuances de
personalidade, condição financeira, moral, familiar e social distintas e
limitadas.
Talvez
eu esteja completa. Sentindo-me digna com a minha contribuição para um
mundo melhor, assumindo publicamente meu amor pela minha igual.
Baseada em um bom emprego, autonomamente faço minha escalada social.
Deixo para trás dissabores que a sociedade me impôs ainda na
adolescência. Hoje com garbo e competência, posso levantar a linda
bandeira do arco-íris em praça pública. Tascar um beijo em frente às
câmeras de TV, porque no mais profundo do meu íntimo, sou lésbica, sem
amarras e ciente do meu papel no centro da massa humana!
Não preciso me esconder! Ou a família me ama ou me ama! Meus amigos são
realmente do peito, ou não os tenho. Minha autoconfiança e a liberdade
conquistada ao longo dos anos me colocaram nessa posição confortável de
andar por onde eu quiser, lutando pelos direitos de ser eu mesma
simplesmente!
Mas,
e se eu for completamente casada com um homem e passei a minha vida
inteira a esconder de mim meus sentimentos? Que fazer se a vergonha de
ser o que sou me faz ir às raias da loucura? Que fazer se meu filho por
um instante sequer imaginar o que vai no meu interior? Que fazer com
esse marido que venho de alguma forma tentando amar desde meus 15 anos?
Como encarar a vizinhança? Se eu sair desse casamento para assumir “meu
caso com ela”, que acontecerá com a minha família? Viverei de quê...
Nunca trabalhei... De vez em quando, me encho de forças e digo a mim
mesma: Mude de cidade e vá ser feliz com ela!
Mas como seremos felizes se ela mal se sustenta? Como mudar o que sinto
por mim mesma????
Também,
posso ser uma adolescente cheia de gás e energia,nascida ao som de Marisa Monte e me projetando na figura alegre, destemida e escrachada que foi Cássia Eller! Época de caos, mas que posso me impor aos caminhos do meu querer porque sei onde tenho que ir e porque vir! Vejo minha história na TV, escuto o meu amor nas rádios, debato na escola a minha liberdade sexual de escolher minha parceira. Crio asas junto aos órgãos que me prometem direitos igualitários! Acredito, no auge dos meus 17 anos e meio, que a minha vida só depende de mim e amo a minha namorada. Vou amá-la até que o eterno não perdure!
E
se eu for apenas uma mulher perdida em conceitos no meio do turbilhão do novo que me deixou tão velha? Posso estar vivendo há 18 anos com uma companheira, sendo respeitada por parentes e amigos sem ter mais que agüentar chacotas nas reuniões familiares porque nos impusemos ao respeito? Temos estabilidade financeira, vivemos uma vida comum sem nos entrincheirarmos contra poderes e interesses. Apenas conquistamos o direito de nos amar, caladas, mas livres.
E
quem sabe se eu seja anti-social? Escondida nos cantos da Faculdade,
tentando me efeminar para não dar bandeira? Mesmo assim, ainda
perseguida por olhares e risinhos de idiotas? Odiando o jeito que aquele
otário professor se insinua para mim, na tentativa de provar que todo
sapatão é mal comido? Devo contar o que aos meus pais e parentes, se
eles são cegos por conveniência? Para que expor meus sentimentos se
todos pensam que eu sou uma máquina desequilibrada de fazer sexo?
Não, eu estou esperando o tempo certo de poder me desabrochar e caminhar
com a minha futura amada pela vida. Sonho com um cantinho confortável.
Acredito que serei uma boa profissional e sei que o tempo será meu
aliado.
..........................
Pois é, quando cairmos no clichê:
Sair do armário
vamos tomar cuidado para não deixarmos em evidência mais um clichê:
Sou e daí?
Vamos sempre nos lembrar que somos seres humanos que na tentativa de
termos um rumo para nossas vidas, acabamos muitas vezes acertando e
errando nos caminhos escolhidos.
Cada vez que uma de nós puder fazer a sua parte, que o faça.
Vamos deixar de lado esse preconceito que ainda trazemos pelo nosso meio
onde o reforçamos com críticas que não levam a nada a não ser ao puro
PRECONCEITO...
No Aurélio está definido:
1. Conceito ou opinião formada antecipadamente, sem maior ponderação ou
conhecimento dos fatos; idéia preconcebida.
2. Julgamento ou opinião formada sem se levar em conta o fato que os
conteste; prejuízo.
3. P. ext. Superstição, crendice; prejuízo.
4. P. ext. Suspeita, intolerância, ódio irracional ou aversão a outras
raças, credos, religiões, etc.:
Respeito ao próximo em primeiro lugar!
2000
