
Santa Inquisição
Esse filme a gente já assistiu!
Noite fria do dia 31 de julho de 2003.
Aqui, em algum lugar do estado de Santa Catarina uma casa aconchegante. Perfeita.
No pomar algazarra de pássaro nas tardes tranqüilas, no jardim os amores-perfeitos florescem... A grama ainda que castigada pelo frio, viça alegre. A palmeira arquitetada pela mãe natureza, soberana paira no ar, farfalhando ao toque do vento.
A minha ][V][orena (minha cadelinha) enrodilhada no próprio corpo em sua caminha, olha-me de soslaio conferindo se estou mesmo a fazer a janta. Sorrio. Agacho-me alisando sua cabeça redonda e pequenina, ela meio que geme em agradecimento. Amo essa cadela!
A sopa fumegante no fogão avisa-me com o seu olor característico que está pronta. Levanto o olhar até o relógio, minha companheira deve chegar a qualquer momento. Corro para o banheiro e encaro o chuveiro! Saio às pressas, me encho de creme. Ponho o pijama. Sinto os chinelos fofos nos pés e escuto os latidos de ][V][ orena que alvoroçada corre até a porta, saudando ainda, o girar das chaves do lado de fora. Minha amada chegou!
Como sempre a cachorra faz a sua festa particular, e só depois de alguns segundos me sobra atenção. A sopa vai sendo despejada no prato. As três encaminham-se para o quarto. Pratos protegidos com guardanapos isolando das nossas mãos o calor. Vamos jantar assistindo o jornal.
Entre cobertor e ededron, o ossinho da ][V][orena, minha meia que perdi ontem e almofadas espalhadas sobre a cama, com maestria nos acomodamos.
Enquanto passa uma propaganda da Skol, olho para as cortinas e penso:
- Preciso lembrar a faxineira de tira-las para lavar!
Minha companheira entre um assoprão e uma colherada de sopa, me fala um pouco do seu dia na Universidade. Início de semestre para os professores é puxado.
O jornal começa com as famosas chamadas. Envolvidas com nossa prosa não damos bola. ][V][orena nos olha com um jeito “ pidão”, nós a ignoramos.
A Globo em primeiro plano trás aquela série de reportagens sobre a mulher anos 2000. As maravilhas que a tecnologia está fazendo na área de fertilização in vitro. A grandeza Divina que deu aos homens a inteligência me embevece. Que Ser magnífico bondoso e sobre tudo humilde, que mesmo vendo seus filhos cá em baixo se matando por ideais, ainda lhes concede o direito de melhorar a própria natureza a qual, Ele criou. A noticia segue mostrando a felicidade de um casal de lésbicas que estão se preparando para que uma delas engravide. Lindo. A humanidade tem jeito!
Minha companheira e eu nos olhamos e por estarmos com a boca cheia, apenas sorrimos.
Sorriso que foi cortado logo em seguida.
A repórter diz: - no próximo bloco: “O Papa faz campanha mundial repudiando os homossexuais!”
Devoro o resto da minha sopa. Minha companheira corre até a cozinha levando os pratos.
As duas tesas em cima da cama ansiosas esperam o resto da notícia...
E foi uma coisa!
A SANTA SÉ, divulgou por meio de um documento oficial, de 11 páginas, com o magnífico título: Considerações acerca dos Projetos de Reconhecimento Legal das Uniões entre Pessoas Homossexuais, elaborado por um cardeal alemão Joseph Ratzinger, que entre outras coisas, ocupa o cargo de prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé.
O longo pretensioso e tolo documento é de cunho totalmente homofóbico.· As uniões homossexuais soam consideradas IMORAIS e NOCIVAS à sociedade
· O matrimônio é santo, enquanto as relações homossexuais divergem da moral natural.
· Os atos homossexuais fecham o ato sexual para o dom da vida, não podem ser aprovados de maneira nenhuma
· Os atos homossexuais são intrinsecamente desordenados e sua pratica é um pecado grave contra a castidade
· O casamento homossexual não assegura adequadamente a procriação ou a sobrevivência da espécie humana
· A ausência de bipolaridade sexual cria obstáculos ao desenvolvimento normal das crianças integradas nessas uniões, já que lhes falta a experiência da maternidade ou da paternidade
· Os reconhecimentos legais desses casais supõem a redefinição do casamento, que perde sua referência como lugar p/ a procriação e educação
· É preciso que os políticos católicos se abstenham de qualquer tipo de cooperação formal à promulgação ou à aplicação de leis tão injustas. Eles devem reivindicar o direito à objeção da consciência
Não posso deixar de frisar que no documento há um trecho deveras comovente:
“ ..., apesar disso, recomenda que os homossexuais sejam” acolhidos com respeito, compaixão e delicadeza para evitar qualquer discriminação injusta”.
Piada!
Nas linhas e entrelinhas do tal documento vejo minha dignidade ser jogada ao vento!
Vejo Deus acabrunhado, torcendo as mãos, com os olhos marejados buscando consolo em seu filho Jesus. O olhar Deles é o suporte para ambos nessa hora de dor e desterro.
Na terra falanges de anjos descem até os lares onde a discórdia já reina por ignorância e incompreensão de familiares homofóbicos, apaziguando os ânimos inflamados pelo aval PAPAL.
Em quartos de meninos e meninas, a revolta e a dor tomam conta da alma e do corpo que não condizem com a exigência PAPAL.
Passeio o olhar pela cortina, minha cama, minha cachorra, meus cobertores. Respiro fundo e sinto o cheiro da minha casa invadir minhas narinas. Em espasmos, corro meu pensamento lá para fora e revejo tudo que me cerca, o pomar, a palmeira, a horta, meu jardim, a brisa, o cheiro de mato, olho, olho...
Olho para minha companheira e vejo anos de dedicação, carinho e respeito estampados em seus olhos amainando minha indignação!
Não quero aqui justificar o que sou. Apenas quero deixar claro a Santa Sé, que sou filha de Deus, Ele sim, entende os seus próprios desígnios e os meus!
Em algum lugar da bíblia está escrito que sou feita à imagem e semelhança Dele, então Ele, é uno comigo!
E ser uno filosoficamente me outorga o direito de não me destruir, nem quando as partes dessa ambigüidade são separadas por fogo ou palavras pernósticas
Sendo Ele o Grande Pai da Raça Humana e, tendo nos dado a graça de enviar o maior avatar que a Terra já ouviu, viu meu irmão maior Jesus, e sendo eu parte integrante da Raça Humana me dá o direito desesperado de pedir sem constrangimentos:
- Meu Pai! Meu Irmão Maior... Tira de mim esse sentimento barato de superioridade e faça com que meu coração entenda a frase:
-Eles não sabem o que fazem!
2003
