O guardanapo do buteco é uma coisa preciosa, entre enrolar um baseado, levar uns par para o banheiro porque nunca tem papel higiênico, catar mais alguns para enxugar a poça do copo de chopes, porque buteco que é buteco não tem aquelas bolachas de papelão; fazer deles bolinhas na hora da exaltação de um papo acalorado e até mesmo joga-lo na cara de alguém quando as idéias extrapolam ao máximo a sua tolerância; também tem uma utilidade sem par: serve de boa folha de rabisco para bebuns solitários...
E por ter levado um furo tremendo e já ter tomado umas par de cervejas, me vi dobrando o pobre papel em mil, talvez inconsciente quisesse eu fazer um origami.

Uma ova! Queria mesmo que de repente aquele papel fosse um tijolo daqueles baianos de seis furos pra mandar ao solo e vê-lo espatifar!
Mas sou de paz. Melhor era tentar fazer uma bomba, ops, pomba do meu companheiro guardanapo. Cansei de virar e desvirar o pobre que já esfarelava na minha mão e nada de arte em origami. Amassei e joguei em cima da mesa.


Catei outro, chamei o garçom e pedi uma caneta, pois justo hoje estava desprevenida.
Primeiro alisei o guardanapo, de toda a forma queria tirar as suas dobras, queria que se transformasse numa folha retinha de sufite, alisei, alisei e nada.
O jeito era escrever nele assim mesmo, devagarzinho porque senão ia rasgar.
Olhei para o guardanapo ele olhou para mim, branco de ambas as partes.
Fiz uma bolinha, joguei no cinzeiro, repousei minhas mãos na cabeça.
Peguei mais um (não o alisei não, desta feita fui mais esperta, minto, dei só uma alisadinha) empunhei a caneta e parti pra cima dele com toda a delicadeza.
Ensaiei uma frase, de repente incorporei, as palavras iam saindo fluidamente, verbos, consoantes, adjetivos. Animada pensei que com certeza com aquele texto ia vestir o jaquetão da Academia Brasileira de Letra. Frenesi total. E vieram mais guardanapos e na seqüência mais algumas cervejas.
Fim! Minha obra literária estava finda e eu doida de fome!
Pedi uma gororoba qualquer e fui colocando as “páginas” que ,é claro, as havia numerado para não se perder depois, uma a uma. Com esmero total as dobrei em duas e coloquei na minha pasta!
Santo guardanapo, da noite furada de solidão, havia eu conseguido por obra dele existir ter escrito algo bárbaro!
Quando o rango chegou, me fartei e duplamente feliz fui embora levando minha preciosidade na pasta!
Enfim, a repórter de COLUNA SOCIAL, ia ter reconhecido seus méritos!

 

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Acordei numa ressaca só. Credo. Excedi na cerveja. Que nada, acho que o creme de milho que havia na gororoba me havia detonado o fígado.
Chuveiro ligado, café na cafeteira, dentinhos escovados, secador no cabelo, roupinha ridícula, abro a pasta.
Ai! Logo de cara lá está em primeiro plano na minha pasta altamente bem organizada minha obra prima.
Com a xícara de café na mão peguei os guardanapos, olhei para o relógio, ainda tinha 20 minutos, saí com as folhas na mão, sentei numa cadeira e fui reler minhas linhas.
Ok, linhas mesmo! A caligrafia era uma coisa de doido! De repente dava até para distinguir, um “r” no final denotando um verbo, as tais consoantes pareciam rubricas. Desespero total.
Virei as folhas e fui ficando tensa. Dei conta que escrevi em aramaico!
Não podia ser verdade, a euforia com que as idéias rolaram da minha mente não podia ter se perdido desta forma! Olhei para o relógio, tinha mais cinco minutos.
Voltei à primeira folha... Nada! Intraduzível!
Antes de fazer as folhas do guardanapo virarem uma bolinha bem redondinha, pensei:
- tá na hora de eu comprar um notbook!
Não flertei com outra possibilidade.
Na saída pinchei a bolinha bem redondinha no lixo.





 




e no buteco...
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