Feriado prolongado na fita. Sol em esplendor zodiacal. Vento sul se foi!
Sentada num boteco “afável” de frente ao mar de Imbituba, vou revolvendo a areia
com os dedos do pé numa preguiça de dá gosto.
A mulherada já está toda estirada nas toalhas mais malucas que já vi. Estão lá
escarradas prontas para se irmanarem a raça do camarões empanados.
A molecada se mata entre um mergulho e a pelada.
Um idiota chega com o seu “sonzão”.
Yes... Ele além de ter um carro moderno, tem uma aparelhagem se som!O que, penso
eu? Falta para ele é um fone de ouvido, porque ninguém merece escutar o “breu”
que ele gosta!
Normal. Praia. Espaço público, público espaçoso.
Dou um gole na breja geladinha, só não estralo a língua porque acho meio macho
essa coisa, mas bem lá no fundo a estralada foi legal!
Jogo a cabeça para trás relaxando meu pescoço. Olhos fechados. Brisa roçando meu
corpo. Uma mão no meu ombro.
Abro os olhos: Thais!
- Minina! Que surpraisi! Que tú tá fazendo aqui?
Já fui levantando e abraçando-a:
- Ih Yara nem te conto... Ralei de casa!
- Como é que é? Vocês terminaram?
- Sei lá se terminamos... Acho que estou pirando - foi se sentando.
Silêncio. Thais questiona os grãos de areia...
- Qué falá sobre?
- Num sei não... A gente deve estar passando por uma crise braba! Tudo que eu
falo prela, entra por um ouvido e sai pelo outro.
Acendo um cigarro olhando-a de soslaio.
- Ontem a noite minha paciência findou! Cê magina que os pais dela estiveram lá
no ap. e mais uma vez ela se enverga de hetero e fica dando uma de boazinha na
frente dos velhos.
Balancei maquinalmente a cabeça.
-Aí quando eles foram embora, encostei ela na parede.
-Uiaaaaaa! Então foi bom - tentei quebrar a tensão.
-Ai Yara... É serio.
-Toma um gole vai, já é perto de meio dia...
- Não. Vou tomar uma caipiroska.
- Vai fundo...
Entre ela chamar o moleque que servia no boteco e se levantar para pegar o
cigarro que estava no bolso do seu short, maliciosamente por trás do óculo de
sol, tirei uma linha da sua imagem.
Eita menina bonita. Gostosa. Cheirosa (o vento trazia o perfume dos seus cabelos
ainda úmidos...).
- O tempo ferveu Ya... -foi acendendo o cigarro e vomitando sem tréguas para que
eu não pudesse fazer qualquer gracinha no meio da sua prosa:
- Disse que eu tava de saco cheio dela ser uma enrustida! Que a nossa
convivência de oito anos é nada mais nada menos, que conhecida por toda a
torcida do Grêmio, só ela que não sabe. Que o saco que não tenho tá doido de
tanto esperar que ela faça o contrato de parceria civil. Que ela é uma bundona!
Que nosso plano de saúde pode ser reduzido entre 45% por cento se nos
apresentarmos como parceiras! Que a aposentadoria pode fazer parte da nossa
velhice! Que nunca vai sair do armário porque caga de medo dela mesma, porque a
maioria num tá nem aí com ela. Ah! Também disse: VOCÊ NÃO É O UMBIGO DO MUNDO!
A caipirinha chega. Thais dá um gole, leva o cigarro nos lábios e a tragada é
enorme. Tenho a impressão que ela vai fumá-lo de uma vez. Para meu alívio não.
Fico rodando o dedo indicador no tampo da mesa. Acho que não sei o que falar!
- Aí Yara! Você acha que uma mulher como eu, 45 anos, já gramei um monte, pastei
mesmo! Vou fica nesse jogo de esconde-esconde? Cê acha- a voz tinha uma
entonação irônica- que euzinha vou sobreviver no meio disso tudo???
Virou mais um gole, puxou nova tragada.
- Não quero sair por aí de braços dados, beijando na boca muito menos escrever
na testa: SOMOS LÉSBICAS, só penso que entre visibilidade e dignidade, prefiro
ser decente!!!
-É cumplicado esse trem. Cumplicado por demais!
- Tá, mas você milita, faz e acontece e agora vem com essa: é cumplicado e nada
mais?!
Aí foi a minha vez de encarar um gole mililítrico na breja, fazer todo o ritual
para acender o cigarro e lentamente encará-la. Subi o olhar junto com a mão que
levava o cigarro em meus lábios, minha resposta:
- É miga... O nosso cotidiano é brabo! Vivemos com mulheres maravilhosas e ao
mesmo tempo covardes! Fazer o que se separá? Dar mais tempo ao tempo? De fato
num sei.
Eu da minha parte acho fácil ir numa porra de passeata e beijar na boca. Acho
até que idiota promover beijaços, acho que esse tipo de atitude nos vincula mais
na tarja de “sexuais por demais”, mas faze o quê? Agora essa coisa de assinar
petição, entrar num cartório e preencher a papelada para garantias de um futuro
sob os auspícios das “leis” parece ser mais complicado...
As lésbicas estão nessa marcação... O tar de Fróidi deve explicar...
Se eu quero, ela não qué, vem o dito popular ferrando com a minha estadia nesse
relacionamento: quando um não quer, dois não brigam! Daí a gente tem que se
armar de coragem e sair?
- Yara! Isso lá é uma resposta?
Tensão. Ela toma um gole, eu outro. Apago meu cigarro.Ela acende o dela.
Ela se volta de costa para mim a observar o mar. Eu arrisco uma olhada no
horizonte.
Surfistas bóiam elegantemente ao longe.
2007
