Vanda insistia com as palavras e implorava com o olhar:
- Vamos comigo. Vida nova para nós duas e para seu filho!
A mente de Alicia girava indo e vindo, perdendo o som das palavras de Vanda!
Seu coração se repartia em clamores surdos. Entre vislumbrar as imagens vestigiais de um futuro em terras Portuguesas e suas noites insones banhadas de culpas, só lhe restava uma estrelinha no céu da sua agonia: a auto-censura!
Ao toque da mão de Vanda em seu braço, o olhar dantes perdido sobre o painel desvia-se olhando pela janela do carro.
- Esse cargo na multinacional Portuguesa é garantido, você e o menino terão segurança!Ele excelente escola... Quem sabe você não faz seu mestrado por lá?
Ansiedade brotava em cada palavra de Vanda.
O silêncio de Alicia era ensurdecedor em sua mente, defrontava-se com um mundo de felicidade e dor!
Vanda arqueia o corpo sobre o volante tentando escutar os pensamentos dela. O vento frio entra pela janela.
Alicia distanciada em suas vontades se fecha em conchas.
Viaja por seu jardim onde seu filho de oito anos brinca dando cambalhotas na grama bem cuidada. Escuta o barulho do carro chegando à garagem e a imagem de seu marido assomando na porta da sala. Aquele homem de sorriso aberto larga o pão (como sempre) em cima do sofá. Desabala a correr atrás do menino que finge fugir. Balburdia, risos soltos pela casa, desfecho esperado e bem vindo; os dois caem por sobre o tapete e rolam. O menino ri... Seu marido rosna e mordisca a barriga da criança...
Vanda imóvel mantém-se debruçada no volante.
Alicia abaixa a cabeça, sonda algo na prega de sua saia e encontra a resposta para ela em seus pensamentos:
"- Eu amo meu marido! Nela encontrei a insanidade total! Prazer intenso, loucura e tesão desmedido! Somos feitas para a alcova e só! Alicia treme. Sabe que engana a si.
Fixada na prega da saia que lhe impunha a ordem dos pensamentos, escuta sem acreditar, as próprias palavras:
- Não posso ir Vanda. Já falamos muito sobre essa situação desde que você recebeu a proposta!Você sabe que não irei! Se eu fosse, seria uma batalha que deixaria minha vida e a do meu marido marcadas com feridas que não cicatrizariam... Meu menino no meio disso tudo... Não. Eu não teria estrutura para entender, e também, não saberia lidar com tudo isso. Eu nem sei se sou lésbica! Não. Eu fico. Você vai. E eu vou agora.
Abriu a porta do carro e saiu.
Vanda não se moveu. Lágrimas vertiam por sua face. Ousou sonhar! Flertara com a possibilidade de viver com Vanda e seu filho a tão desejada felicidade!
Vanda sabia que elas se amavam, Alicia só não conseguia entender seus sentimentos... Então...Então fugia de Vanda!
Vanda olhou o vulto decidido dela indo até a parada de ônibus. Alicia ao parar no ponto, lança seu olhar para o carro.
O ônibus aponta na esquina. Vanda sai do carro. Alicia petrificada divide o olhar entre o ônibus e as passadas firmes de Vanda. Alicia é a única na parada de ônibus. Ela tem que acenar senão, o ônibus não pára. Espantada, sem acreditar, espera e ânsia pelo abraço de Vanda. Deixa o ônibus passar. Deixa-se acolher por Vanda.
Segundos de terno abraço e eloqüente silêncio quebrado apenas pela sua voz:
- Me leva... Não me deixa aqui.
O vento frio arrepia, passa por elas.
Vanda agarrada em sua felicidade vê o ônibus sumir pela rua, sorri entre lágrimas. Aperta mais o corpo frágil de Alicia e suspira...