Uma amiga disse que ela estava de paquera com outra. Isso me desesperava.
A gente havia brigado por coisa tão boba há dois meses!
Em contrapartida, vivemos intensamente um romance cheio de sonhos e propostas
de futuro por oito meses... Não haveria de ser uma rusga tola que ia nos
separar, muito menos outra garota.
Então?Tivemos ou não tivemos algo?! Pôxa!
Depois de exatamente: dois meses, tentando reatar o relacionamento com Cibele,
à custa de muitos telefonemas e e-mails, consegui!
Combinamos uma almoçozinho aqui em casa.
Umas das nossas muitas afinidades: cozinhar! Tanto ela quanto eu sempre
fazíamos nossos almoços dominicais. Era quase que como ir á missa.
Íamos logo que acordávamos ao supermercado e só lá a gente escolhia nosso
cardápio. Voltávamos entusiasmadas com nossas escolhas.
Enquanto bebericávamos um bom vinho, a cozinha nos transformava em
verdadeiras alquimistas.
Por conta da separação tratamos pelo telefone o que iríamos preparar, eu iria
às compras, o vinho continuava o mesmo.
Bom agora estava tudo lá na cozinha esperando sua chegada e eu aqui debruçada
na janela esperando seu corsinha branco despontar lá esquina... Aliás vindo...
Já vou descendo as escadas para esperá-la lá no pátio.
Ai que linda! Desceu do carro buscando no banco traseiro um belo vaso de
petúnias. Adoro Petúnias... Rosas...Cravos...Até crisântemos, desde que vindo
dela.
Abraço apertado. Cheiro bom do corpo dela subindo até minhas narinas.
Subimos as escadas falando um monte.
Nossa. Parece que não estamos separadas.
Entramos. Na sala mais um monte de falas. A rádio toca algo.
- Então? O vinho tá no ponto, qué um golinho?- perguntei alegremente
Ela sorriu:
- Demorô – já se levantando e se dirigindo para a cozinha.
Nossa. Parece que não estamos separadas.
Papeando coloquei o vinho. Estalamos a língua ao mesmo tempo saboreando a
bebida. Rimos.
-Então? Por onde a gente começa- foi dizendo botando a mão na cintura.
- Pelo começo. Que tu acha? - retruquei perguntando.
Lá nos embrenhamos na gaveta, cada qual com sua faca favorita. Cibele abriu a
geladeira, catou alguns legumes, pedi que me pegasse a carne.
Fomos para a beirada da pia dar início á nossa alquimia, fazendo comentários
possíveis da culinária que nos entretinha.
Nossa. Parece que não estamos separadas.
Corta daqui. Rala acolá.
Cibele nos serve mais um gole de vinho. Segue até o armário, pega uma panela,
eu lá, desossando um belo frango.
Ela fala. Eu falo. A cozinha é uma festa só.
Indago sobre algo com os olhos em cima da coxa do frango que está me
dando uma canseira, escutando apenas silêncio em Cibele.
Desvio meu olhar e Cibele olha o copo de vinho.
Da sala a rádio soluça Simone:
Eu não consigo parar de te olhar,
Eu não consigo parar de te olhar
Eu não consigo parar de te olhar ar ar...............
Eu não consigo parar de te olhar ar ararrrrrrrr............
Nossos olhares se procuram...
Minha fisionomia se renova. Crio coragem.Largo a faca em cima da coxa do
frango e me aproximo.
Cibele se afasta pondo as mãos no rosto. Abre um vão entre os dedos:
-Então!? Se ela não consegue parar de olhar, por que num cala a boca e só olha?!
Segue em direção a sala pega a bolsa e se manda escada a fora.
Então!?Eu?
Euzinha: atônita até hoje!