... Lá estava muito aconchegante. Muito confortável. Prático com uma iluminação perfeita.
Comida ao alcance... Um mundo de vida!
Não sei se dormia ou sonhava, mas eu estava lá, serena a bailar sob
águas mornas...
Não sei donde veio aquele aperto no peito! De repente uma agonia tomou
conta de todo o meu corpinho. Não senti dor, só desconforto, algo me
empurrava para fora! A água tão protetora e amiga escapava, e eu, não
sabia bem por onde! Tudo fugia a calma habitual! Senti que acordava do
sonho ou do meu sono. Impulsionada fui de alguma forma para algum lugar!
A luz fustigava meus olhos. Vários vultos assomavam-se ao meu redor!
Mãos vigorosas me suspendiam! Um tapa ardeu na minha bunda! Sem ter como
protestar com palavras, berrei! Soltei um choro forte e contínuo. Todos
sorriram! Acostumada melhor com a luz, abri os olhos e o enjôo subiu.
Vomitei, sabe lá o quê... Mas queria enxergar! Mantive heroicamente os
olhos abertos. E de mão á toalhas, cheguei ao regaço daquela Morena que,
entre o assustado e o feliz, aconchegou-me ao seu peito... Eu tive o meu
primeiro momento na Terra... Soube que estava viva.
Obrigada Mamãe!
Não sabia se era dia de festa. Se a chuva ia tomar a tarde ou se a noite
findava o dia. Sabia que na rua de terra batida eu era feliz com a
meninada! E Fartura reinava soberana no Vale...
Sabia que o cheiro da lenha invadia os ares.
Sabia que tinha aula, longo percurso a pé, que sumia em meio das companheiras e das risadas.
Sabia que os todos os dias o galo cantava, e a revoada de pássaros era rotineira. Sabia que tinha
fruta no quintal, rio para nadar, doce de abóbora na casa da vó. Sabia que tinha muita arte para fazer e muita surra a levar...
Sabia que a tarde dormia com a noite e eu acordaria feliz!
Momentos de total felicidade!
Sabia que era criança!
E a noite já me atraia mais que o dia! O dia? Era uma chateação só! Era
pai e era mãe em volta dos meus passos a cuidar da cria. E a cria era um
potro selvagem! E a mãe lá nos cantos do quarto a sussurrar conselhos. O
pai lá no meio da sala a rosnar conceitos!
Mas tinha a noite e com ela, vinham as companheiras ardendo em hormônios
e prosas!
Tínhamos o que rir.
Tínhamos muito que chorar!
Tínhamos muito que aprender uma com as outras!
Momentos de miscelânea sentimental!
Não sabia se já era "gente"!
Soube que a vida poderia ser mais que certezas!
A Noite foi me engolindo. Entre corpos e gestos trôpegos, fugi
vivenciando a droga de ter me envolvido demais com os outros e pouco
demais comigo! As madrugadas tomaram-me por tola!
Enroscada na ponta da lua, deixei-me cair! Despenquei dos céus...
E na certa, no lugar errado...
Vomitei ilusões! Abortei
sentimentos num fétido porão!
Intranqüila fugiu! Vi-me cercada pela solidão!
Corri perdida entre a Timbiras com a Contorno...
Chorei no primeiro ombro!
Revidei o tapa.Ardeu mais em mim! Sangrei...
Momentos de angustias e incertezas!
Soube que tinha que parar!
Parei!
E foram tantos anos que quando dei por conta, o comodismo me abraçara!
Os dias me engolindo! As Abelhas me picando... Da Colméia só o cansaço!
E foi tanto amor que ganhei o descaso!
Tantas saudades que voltei ao futuro!
E foi tanta vida que renasci!
Meus momentos mais sábios!
Sei que estou aqui!
