A Menina que habitava dentro dela era diferente!
Vislumbrava em brechas suas realizações lá adiante. Trazia a sensação de usufruir a vida, o que estaria por vir, sem a pressa dos que passam e não observam.
Espreitava a noite cair lá fora engolindo o dia, exaustivo e imbecil, revivido diariamente.
A Menina risonha sabia que o mundo lá fora morria.Só no apartamento o amparo á vida existia!
Mal iria escutar o trânsito que nunca parava. Durante a madrugada, talvez, uma sirene de ambulância ou da polícia, zuniria no frêmito de salvar ou matar. Incoerências da grande cidade com seus pequenos habitantes.
Distanciada de tudo até dos pensamentos, enveredou-se pelo corredor atendo-se no quarto de vestir. Deixando os sapatos na entrada do quarto, foi retirando o casaco. Deixou que o vestido escorregasse pelo seu corpo.
A Moça que vivia entre seus sonhos e ânsias se permitia tocar pela leveza do tecido. A fazenda perfumada caindo pelo seu corpo trazia o arrepio. Gostava da sensação da luxúria mesclada de recato. Moças são assim, de um lado a criança que engana, do outro, a fêmea que procura desvendar suas próprias vontades. Às vezes descobre. Às vezes se cobre.
Caprichos de moça.
A meia fina trazia o conforto de se encontrar vestida. O sutiã, a comoção de estar em luvas!
Sentou-se no banquinho aveludado. Lenta e metodicamente, foi retirando a meia-calça sem pressa. A Menina lá da sala, lhe gritava:
-O dia acabou. O dia acabou.
A Moça olhou para trás certificando se a Menina ficara na sala. Sorriu.
A Mulher se levantou jogando a meia em cima de um móvel próximo. Estirou a perna direita, sentiu-se ainda calçada. Distendeu a perna esquerda, sentiu no quadril uma leve massagem.
Subiu as mãos até os cabelos os amarfanhando. Fez deles tufos, puxando-os e se deliciando com a leve dor que massageava seu cérebro.
A Mulher sabia fazer coisas bem boas para si.
Suspirou e seguiu para o seu esperado banho. Furtiva embrenhou-se nas gotas que caiam. Sumiu no meio da água.
A Mulher sabia bem fazer aquilo.
A toalha em contato com sua pele agitou sua circulação. Deixou que os cabelos presos em coque, protegidos da água, assim se mantivessem. Colocou seu robe. Não se olhou no espelho. A Mulher não gostava de se olhar no espelho.
A Menina lá na sala ria.
A Moça no closet questionava.
A mulher não tinha porque se preocupar.
Cheirosa segue até sua cama ampla e confortável. Deita-se comodamente. Respira fundo. Expele o dia, inspira a noite. Exercita-se assim por alguns minutos.
A Mulher sabe fazer coisas bem boas para si.
A Menina na sala fica doida para que esse exercício acabe.
A Moça no closet se impacienta.
A Mulher,relaxada sente todo seu corpo entorpecido.
Refestelada em seu ninho sente aconchego e proteção.
A Menina se agasta!
A moça fica sem jeito.
A Mulher plásmica deixa se dominar pelo sensorial.
O calor sobe em seu pescoço. Um arfar quente e úmido permanece, deixando rastros molhados. Seu coque é desfeito por mãos leves. Os braços vão lhe envolvendo. A respiração se descompassa. O corpo, embora imóvel, tremula em seu interior. Sente o ventre acarinhado, arranhado.
Seus seios tocados pelo hálito quente, responde arrepiando-se! Seu colo espera e de antemão conhece a impressão. Não há desalinho em seus membros. Sua mente a transporta. Seu corpo a segue... Imóvel. Deixa-se sugar por todas as sensações que sobressaem daquela boca, daquelas mãos que percorrem desavergonhada e hipoteticamente suas fantasias.
A Menina na sala acha melhor se entreter com as luzes que vêm lá da avenida.Debruça na janela e tenta ver se a ambulância vem vindo.
A Moça fica sem jeito, retorce as mãos e com um canto do olho espia.
A Mulher lânguida estertora obscenamente.
Geme e sussurra. Um leve temor em suas pernas semi-abertas deixa perceber, que ela se encontra naquele corpo.

A Mulher sabe fazer coisas bem boas para si.