Telma se aproximou de mim.
Copo de bebida na mão. Um sorriso arquitetado,palavreando, tentando
alcançar meus ouvidos. Olho para ela centrada na minha criança
abandonada remoendo a raiva de ter sido trocada!
Sinto meus olhos brilharem! Um fogo sobe em minhas faces! A irreflexão
me domina.
Ângela, fala, fala. Tenta ser indiferente ao meu olhar inflamado!
Ela está nesta festa feliz com seu novo amor tentando provar a si, que
entre nós tudo terminou!
Desvia seu olhar do meu procurando por sua namorada. Não a encontra.
Contrai os lábios, expressão tão conhecida por mim. Arremeda um sorriso.
Levanto-me e a seguro pelo cotovelo, forçando um caminho:
-Vem! - digo, ela vai perguntando o que está acontecendo.
Não respondo. Na proximidade do seu corpo, bebo seu perfume.
Interiormente lamento a falta que ele me faz!
Telma não compreende. Estamos numa festa. Muita bebida. Um monte de
sapatão conhecido! Um monte de gente alegre.
Silenciosamente passamos pelo meio da festa. Não sei se nos olham.
Ela vai falando da festa, das pessoas...
Empurro-a corredor afora, abro uma porta, é o banheiro. Espremo-a contra
a porta que fecho.
-Você está louca?!
Cubro sua boca com um beijo. Raivoso. Esperançoso.
Suas mãos me afastam. Doem em meu peito como se em suas palmas, fogo
houvesse!
-Pare imbecil! Desde quando não me dei ao respeito?!
Suas palavras saem de uma boca adorada. Seus olhos injetados de aversão
me parecem os de um anjo.
Mantenho a pressão do meu corpo sobre seus braços.
- Me solta Mirtes. Não somos crianças!
Ela fede! Parece-me horrível em seu lindo conjunto verde.
Acintosamente imponho meu peso sobre seus braços. Colo minha boca na
sua. Agarro seus cabelos na plena intenção de despenteá-la. Esfrego todo
meu corpo em sua resistência. Sinto a pressão mais fraca no meu
peito.Nada se ouve! Invado suas defesas. Acato minhas vontades. Não
poupo um milímetro sequer, daquele corpo que tantas vezes, delirara em
meus braços! Oscila sua respiração. Línguas já se encontram!
Bruscamente sou empurrada. O som do tapa ardendo em meu rosto, ecoa na
minha rejeição!
Parada cambaleante, fixo os olhos marejados de Telma:
- Por quê???? - suas palavras me atingem a razão!
Meu rosto em chamas e minha vergonha exposta se negam a responder.
Volto a mim com o som da porta se fechando, batendo estrondosamente.
Passo a mão em minha testa. Olho-me no espelho:
- Por quê? Por quê?
Reflexiva, acho que eu não sou eu, ou pelo menos não era. É ela que me
toma o bom senso!
São as dores de três anos sem sua presença.
Não tenho mais seus olhos irradiando o prumo do meu caminho!
- Por quê? Porque...
