A vida era risonha se observada por uma das partes, e pelo todo, desculpável!
Claudia, há tempos minorava a falta de afago entre sua companheira e ela. Vivia
atenuando o golpe dos dias de fastio e as desculpas eram rotineiras. E também,
havia na semana sempre uma sexta-feira!
E hoje é sexta-feira.
Claudia prepara os petiscos e toda e qualquer dúvida acintosa sobre ser ou não ser, findaria naquela
prosa gostosa entre as duas que sentadas à mesa na varanda, iam deixar o corpo
dolentemente se envolver com uns bons goles de cerveja e, antes de anoitecer, o
olhar teria por prenda lá nos cafundós, por cima da cerca de hibiscos, o derrame
abóbora dos últimos raios solares tingindo o céu.
Cumplicidade no silêncio que gritava aos olhos e acarinhava as almas cansadas da labuta da
semana.
A brisa roçava o olfato tirando lá do meio do mato um cheiro de dama-da-noite.
A cerveja refrescando o corpo e amortecendo a consciência .Fala fluida ...
Já se achegava à conversa Descartes. Seqüencialmente, Sartre vinha pincelar a eloqüência das duas
entre estar para ser, ou ser simplesmente para estar!
Era inevitável não concordar com a nitidez de expressão de Simone!Dramaticamente entre um copo e
outro de cerveja, acordavam em muitos pontos com Nietzsche!
Às vezes se calavam. Por vezes apenas olhavam a noite e seus pirilampos. Por
sempre, eram observadas pela lua e as estrelas.
Nesse admirável mundo velho, Aldous Huxley também fazia parte entre tantos
convidados...
Momentos de deleite intelectual.
A boêmia filosófica invadia a madrugada. Emoções eram detalhadas.
Conclusões nem sempre concludentes somavam índoles...
Toda essa prosopopéia era regada num bom tom, da sala soprava MBP genuína!
Foi numa destas noites risonhas e desculpáveis que Claudia analisou a frase de
Huxley: "Experiência não é o que acontece com um homem; é o que um homem faz
com o que lhe acontece".
Olhou atentamente a tudo que lhe cercava, com certeza memorizando seus últimos
instantes naquele sitio.
Agarrou a mão da parceira de tantos anos e com a coragem que só a loucura da
sanidade pode prouver, soltou um grito em forma de fala doce e amena:
- Vou embora daqui... E vou só!
Espanto e dor em ambas! Coração extrapolando as batidas permitidas. Afogueação!
Caos! Fim. Meio. Começo.
Assertivas discutíveis, como se fosse possível!
Interrogações carregadas de incredulidade!
Caos. Meios. Fim. Começo...
Houve lágrimas. Palavras carregadas de culpas... Vozes em comoção findaram num
silêncio e malas feitas...
Um cigarro foi acesso na noite anterior da partida. Ânimos acalmados. Olhares em
que a confiança se fazia mostrar. Carinhos nunca mais tidos entre as duas
ressurgiram.
Abraços demorados, lágrimas extenuadas. Mãos entrelaçadas como se a partida
pudesse ser retida. Ambas descrentes!
Claudia perturbada pois, sabia que a sua decisão não tinha volta, partiria... Cansara
daquela vida risonha mas no todo desculpável.
Partiu. Levou com ela na bagagem apenas a sombra do medo.
Hoje Claudia ainda vive dias desculpáveis.
A vida lhe é mais risonha?
Às vezes se pega nesse dilema: "O universo embaraça-me e não posso acreditar
que esse relógio exista e não tenha um relojoeiro”. (Voltaire)
Se agarra na saga Lacerdista e contrapõe: O futuro não é o que tememos. É o
que ousamos.
Muito risonho!
Claudia está só.
Nenhum ilustre filósofo a acompanha. Os pirilampos aparecem. O mato a circunda.
O afago não existe. Os dias soltam farpas.
As estrelas e a lua cabisbaixas ainda a observa...