Foi bem rápido, mas, num segundo olhar alongado no espelho, ela viu em seu rosto os traços de sua mãe.Voltou-se rápida.
Aquele relance imantara sua visão ao espelho.
Apóia-se sobre os cotovelos na cômoda fixando o olhar em seu rosto.
Testa larga, sobrancelhas grossas. Levando o indicador direito tateou por sobre essa área fechando simultaneamente os olhos. Gostou da própria carícia.
Repousando a mão no móvel observou pequenas rugas no canto dos olhos castanhos e amendoados.
Pela primeira vez buscava sua alma pelas portas dos olhos.Encarou a si. Seu olhar navegou em interiores.
Céu azul claro de nuvens e maresia no ar! Sentiu a brisa na pele e o sol acariciando seu futuro. Uma alegria correu pelo seu corpo e se perdeu entre as bordas do rio e das manhãs radiosas. Imagens e recordações... Alma ao avesso!
A imagem de sua mãe ascende de seu olhar. Misticamente um encontro de seres ocultos suporte á sua ausência de tempo e de lugar.
O espelho a sua frente não a deixava voltar para a manhã que lá fora ardia em raios solares e vida cotidiana. Seus olhos passeavam por aquele rosto que há tantos anos não via. Não vira.
Observou um cravo escondido na face direita e pensou em tirá-lo, mas, a pele estava sem dilatação suficiente, sorriu. No seu sorriso viu o de sua mãe. Levou a mão direita até o espelho e acarinhou sua imagem como se fosse a de sua mãe... Imóvel, o riso continuou em seus lábios. Piscando deixa uma lágrima rolar.
Toca os lábios com as pontas dos dedos, acha-os sensuais.
O encanto se quebra.
A vida lá fora invade o quarto, o reflexo, os olhos...
Vê-se ainda com a toalha, cabelos molhados e o relógio de pulso repousado no mesmo móvel onde estivera apoiada até instantes, acusa seu atraso.
Vira-se rápida. Escolhe a roupa. Alguns traços de maquiagem leve. Sapatos nos pés. Bolsa.
Vira-se pela ultima vez mirando o espelho, sua imagem está lá refletida e os traços de sua mãe sulcam seu semblante.
Apressa o passo sobre o salto alto.