Mormaço rimando com cansaço...
As janelas do carro fechadas. Ar condicionado ligado e mesmo assim, tudo
abafado.
Passeio a mão pelo pescoço massageando levemente a garganta ressequida.
Olho no relógio e pelos meus cálculos ainda faltam 25 minutos para
chegar em casa.
O sinal de trânsito mais à frente "amarela-se" todo e, com certeza, vou
ficar presa no vermelho com segundos que me parecerão horas.
Um carro passa, eu fico. Fico mesmo é irritada! Mexo nos botões do ar
condicionado, libero a ventoinha junto com o ar. Coço o queixo e pouso a
mão no câmbio. Primeira engatada, pés em rumo da deslocada. Gosto de
sair sempre rápido dos sinais de transito.
Será medo de ser assaltada? Incrível! Esqueço do calor e rapidamente
começo neurótica, a olhar por todos os espelhos na busca, no medo de um
assaltante.
Odeio São Paulo! Esboço um riso, amo São Paulo! Sentimentos
contraditórios sempre se avolumam em meu discernir quando os tento
definir perante a monstruosidade sagrada de São Paulo e seus monstros de
açucares...
A avenida alarga-se e o transito flui. Daqui até em casa sem sinais...
Desligo o ar, a ventoinha... Com o dedo indicador dou um toque para
abrir a janela do carro, conforme sinto a ar quente de lá fora entrar me
delicio. Acho que o vento nos cabelos me proporciona tal prazer, que
deixo me enganar me sentido refrescada.
A dois quarteirões de casa um alívio intenso toma conta de mim.
Estaciono em minha vaga. Tranco o carro e o observo dizendo para mim
mesma:
- “Bonito carrinho Maria Laura...”
Olho pelos lados e a garagem está vazia. Dou um saltinho no ar, bato as
mãos e vou pulando feito chapeuzinho vermelho até a entrada do elevador
e, o que é pior, cantarolo a canção do conto infantil! Essa parte
criança em mim sempre aflora quando estou só ou na presença de Fifa
minha gata.
No elevador como na maioria das vezes, tento imaginar como está minha
cara. Que coisa estranha é tomar um elevador! Quando se encontra sozinha
tem-se a sensação de ser observada, quando está lotado tem-se a sensação
de ser sardinha! Sê bem que hoje em dia, as sardinhas já não se apertam
tanto na lata. A última lata que comprei para Fifa, havia um par de
peixes espaçosamente boiando no óleo.
- Estou a cem metros do paraísoooooo" - cantarolo já retirando as chaves
da bolsa. Com um prazer perto de um orgasmo, enfio a chave no buraco.
Sinto o cheiro aconchegante que vem de lá de dentro. Abrindo a porta
aspiro fortemente as impressões do meu lar tragando cada ácaro,
existente no meu pequeno e belo refúgio.
O miado de Fifa com seu dorso, roçando insistentemente na minha perna e
em meus ouvidos. Abaixo-me e acaricio suas ancas. Fifa dá uma leve
abaixada e contorce seu corpo macio e peludo. Adianto-me colocando sobre
a mesa da cozinha meu jantar; um sanduíche, triplo, natureba.
Desviro a ponta do tapete do corredor, Fifa adora brincar com ele. Entre
a sala e o corredor do quarto vou me despindo, jogando pela casa minha
roupa. Adoro fazer essas molecagens, sei que é meio idiota que vou ter
que cata-las depois, ah, mas a sensação é deliciosa, acho que assim,
penso que zombo do dedo em riste de minha mãe. Dou de ombros. Abro a
janela do quarto. Lá estou eu! Décimo andar e toda nua, enfrentando de
peito aberto o negro cintilante dos céus paulista. Ergo os braços e me
espelhando em Fifa, me retorço toda. Aprendi muito com ela em como
relaxar a musculatura.
Vagueio as mãos no ar me dirigindo ao aparelho de som, ligo. A rádio já
sintonizada expele Marisa Monte, sua voz suave percorre todo o
apartamento preenchendo-o de cor e som. Vou até o banheiro, abro o
chuveiro e o jato morno e abundante cai sobre meu corpo cansado, mais
umas boas esticadas. Um sabonete cheiroso envolve meus sentidos e o meu
corpo todo escorregadio torna-se leve. Não agüento e molho meus cabelos
curtos e encaracolados. Sensação indescritível sinto ao deixar que as
gotas alvejem meu couro cabeludo. A música toma conta de mim, agora na
FM, Caetano me canta, dizendo que eu sou linda... linda demais...
Minhas mãos percorrem lentamente meu corpo, às vezes me ensaboando, às
vezes se deixando acariciar.
Assovio alegremente acompanhando Caetano. O xampu deixa meu cabelo
macio, cheiroso. Saio do chuveiro enrolada no robe e descalça, (coisa
maravilhosa de se fazer, pelo menos no verão) aproximo-me da minha
penteadeira, e vou à busca do secador. Olho minha imagem refletida no
espelho e gosto do que vejo. Meus cabelos adornam delicadamente meu
rosto:
- Não vou secá-los - penso - Não tenho que secá-los, senão vai virar uma
coisa - tento me persuadir. Lanço uma piscadela para a minha imagem e me
jogo na cama, Fifa a tudo atenta mia e pula sobre meu peito. Ela e eu
ficamos ronronando abraçadas uma a outra. Fecho os olhos e os sons de
Djavan infundem meus pensamentos. Esqueço de tudo. O escritório, o tanto
de trabalho, São Paulo, o trânsito, o chato que senta do meu lado na
repartição, minha cadeira desconfortável e sem ergometria alguma, a tela
brilhante do computador, o tapete que me causa alergia e até mesmo a
droga do café que parece requentado!
Só a música comanda o meu relax... Só ela e eu nos envolvendo. Fifa já
se afastou, deve estar no sofá seu lugar predileto. Meu corpo todo
arrepia ao escutar os primeiros acordes de uma melodia antiga. Acho que
de 79/80... É Bethânia que gira meus sentidos:
-De repente fico rindo a toa sem saber porque... E vem à vontade de
querer de novo lhe encontrar...
Viajo na velha canção.
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