Corpos e Próteses: dos Limites Discursivos do Dimorfismo

 

Berenice Bento

Um cara chegou para mim e falou assim: "Deixe eu te perguntar: você  é travesti?" Eu falei: "Não, eu não sou um travesti". "Você é mulher então?" Eu fiquei pensando: "O que eu sou?! " (Carla)

 

 

Esse depoimento revela as dificuldades para significar os sentimentos. Diante dele, os limites das categorias homem/mulher referenciadas no corpo-sexuado apresenta-se. Nesse momento, as convenções lingüísticas que produzem seres com gênero inteligíveis (homem/mulher) esbarram nos próprios limites do sistema binário diante de seres como Carla, porque provocam uma quebra na continuidade causal entre sexo/gênero/desejo.

O que é o gênero? Como ele se articula com o corpo? Existe um nível pré-discursivo, compreendido como pré-social, fora das relações de poder-saber? O gênero seria os discursos formulados a partir de uma realidade corpórea, marcada pela diferença? O gênero seria a formulação cultural dessas diferenças? Existe sexo sem gênero? Como separar o corpo/estrutura do corpo/resultado? Como separar a parte do corpo que não foi construída desde sempre por expectativas e suposições do corpo original que não está maculado pela cultura? Onde está a origem?

Pensar as relações entre gênero e corpo, apontando os processos que se articulam para dar uma aparência a-histórica e destituída de seu conteúdo político, parece-me ser uma das preocupações centrais da obra de Butler e de outras/os teóricas/os feministas queer. Para Butler, o gênero não está passivamente inscrito sobre o corpo como um recipiente sem vida.

A visão que define gênero como algo que as sociedades criam para significar as diferenças dos corpos sexualizados assenta-se em uma dicotomia entre sexo (natureza) versus gênero (cultura)

Segundo essa visão, a cultura moldaria, imprimiria nesse corpo inerte e diferenciado sexualmente pela natureza as marcas de cada cultura. Ao contrário, seguindo Butler, podemos analisar gênero como uma sofisticada tecnologia social heteronormativa , operacionalizada pelas instituições médicas, lingüísticas, domésticas, escolares e que produzem constantemente corpos-homens e corpos-mulheres. Uma das formas para se reproduzir a heterossexualidade consiste em cultivar os corpos em sexos diferentes, com aparências “naturais” e disposições heterossexuais naturais. A heterossexualidade constitui-se em uma matriz que conferirá sentido às diferenças entre os sexos.

Através das reiterações contínuas, realizadas mediante interpretações em atos das normas de gênero, os corpos adquirem sua aparência de gênero, assumindo-o em uma série de atos que são renovados, revisados e consolidados no tempo. É isso que Butler chamará de performatividades de gênero.

Antes de nascer, o corpo já está inscrito em um campo discursivo determinado. Ainda quando se é uma “promessa”, um devir, há um conjunto de expectativas estruturadas numa complexa rede de pressuposições sobre comportamentos, gostos e subjetividades que acabam por antecipar o efeito que se supunha causa. A história do corpo não pode ser separada ou deslocada dos dispositivos de construção de um bio-poder. O corpo é um texto socialmente construído, um arquivo vivo da história do processo de produção-reprodução sexual. Neste processo, certos códigos naturalizam-se, outros, são ofuscados ou/e sistematicamente eliminados, posto às margens do humanamente aceitável. A heterossexualidade, longe de surgir espontaneamente de cada corpo recém-nascido, inscreve-se reiteradamente através de operações constantes de repetição e de re-citação dos códigos socialmente investidos como naturais.

O corpo-sexuado e a suposta idéia da complementaridade natural, que ganha inteligibilidade através da heterossexualidade, é uma materialidade saturada de significado, não sendo uma matéria fixa, mas uma contínua e incessante materialização de possibilidades, intencionalmente organizada, condicionada e circunscrita pelas convenções históricas.

Quando o médico diz: “é um/a menino/a”, produz-se uma invocação performativa e, nesse momento, instala-se um conjunto de expectativas e suposições em torno desse corpo. É em torno dessas suposições e expectativas que se estruturam as performances de gênero. As suposições tentam antecipar o que seria o mais natural, o mais apropriado para o corpo que se tem. Enquanto o aparelho da ecografia passeia pela barriga da mãe, ela espera ansiosa as palavras mágicas que irão desencadear essas expectativas, mágicas, no sentido de criarem realidades. Logo depois, o médico dirá o sexo da criança e as expectativas serão materializadas em brinquedos, cores, modelos de roupas e projetos para o/a futuro/a filho/a antes mesmo de esse corpo vir ao mundo.

A ecografia é uma tecnologia prescritiva e não descritiva. Quando o médico diz: “parabéns, mamãe, você terá um/a menino/a”, está pondo em discurso uma evocação performativa que amarra todos a um ato fundacional. Conforme sugeriu Preciado (2002), a interpelação "é uma menina", não é só performativa, no sentido de criar expectativas e gerar suposições sobre o futuro daquele corpo que ganha visibilidade através dessa tecnologia, seus efeitos são protéticos: faz corpos.

Analisar os corpos enquanto próteses significa desfazer-se da relação dicotômica corpo- natureza para apontar o corpo como resultado de tecnologias e o gênero como resultado de tecnologias sofisticadas que produzem corpos sexuais.

Não há corpos livres, anteriores aos investimentos discursivos. A materialidade do corpo deve ser analisada como efeito de um poder e o sexo não é aquilo que alguém tem ou uma descrição estática. O sexo é uma das normas pelas quais o “alguém” simplesmente se torna viável, que qualifica um corpo para a vida no interior do domínio da inteligibilidade. Há uma amarração, uma costura, ditada pelas normas, no sentido de que o corpo reflete o sexo, e o gênero só pode ser entendido, só adquire vida, quando referido a essa relação. As performatividades de gênero que se articulam fora dessa amarração são postas às margens, pois são analisadas como identidades “transtornadas” pelo saber médico.

Os corpos já nascem operados. Como sugeriu Preciado, todos estamos já mais ou menos operados/as por tecnologias sociais precisas. Todos somos pós-operados. Não existe corpo livre de investimentos discursivos, in natura. O corpo já nasce maculado pela cultura.

A experiência transexual nos diz que a primeira cirurgia não foi bem sucedida, que o corpo- sexuado que lhe foi atribuído não serve para lhe conferir sentido. No entanto, este processo de reconstrução do corpo é marcado por conflitos que põem às claras as ideologias de gênero, fundada no dimorfismo, e os/as colocam em posição de permanente negociadores com as normas de gênero.

Essas negociações podem reproduzir as normas de gênero, assim como desestabilizá-las ao longo dos processos de reiterações.

Após o nascimento da criança, os investimentos discursivos dirigem-se para a preparação do corpo para que desempenhe com êxito os papéis de gênero: bonecas, saias e vestidos para as meninas; bolas, calças, revólveres para os meninos. Parece que nada escapa à “panóptica dos gêneros”

O mundo infantil se constrói sobre proibições e afirmações. Essa pedagogia dos gêneros tem como objetivo preparar aquele sujeito para a vida referenciada na heterossexualidade, construída a partir da ideologia da complementaridade dos sexos. É como se as “confusões” nos papéis provocassem, direta e imediatamente, “perturbações” na orientação sexual.

A infância é o momento em que os enunciados performativos são interiorizados e se produz a estilização dos gêneros: “homem não chora”, “sente-se como uma menina!”, “isto não é coisa de uma menina!”. Esses enunciados performativos têm a função de criar corpos que reproduzam as performances de gênero hegemônicas. Conforme sugeriu Butler, são evocações ritualizadas da lei heterossexual.

Citações contextualizadas e descontextualizadas

O sistema binário dos gêneros produz e reproduz a idéia de que o gênero reflete, espelha o sexo e que todas as outras esferas constitutivas dos sujeitos estão amarradas a essa determinação inicial: a natureza constrói as sexualidades e posiciona os corpos de acordo com as supostas disposições naturais. No entanto, como aponta Butler (1999), quando a condição de gênero se formula como algo radicalmente independente do sexo, o gênero mesmo se torna vago e, talvez, neste momento, se tenha de pensar que não existe uma história anterior à própria prática cotidiana das reiterações.

Reiterar significa que é através das práticas, de uma interpretação em ato das normas de gênero, que o gênero existe. O gênero adquire vida através das roupas que compõem o corpo, dos gestos, dos olhares, ou seja, de uma estilística definida como apropriada. São estes sinais exteriores, postos em ação, que estabilizam e dão visibilidade ao corpo. Essas infindáveis repetições funcionam como citações e cada ato é uma citação daquelas verdades estabelecidas para os gêneros, tendo como fundamento para sua existência a crença de que são determinados pela natureza.

Butler apóia-se na tese da citacionalidade de Derrida (1991) para afirmar que a repetição possibilita a eficácia dos atos performativos que sustentam e reforçam as identidades hegemônicas, mas, também são as repetições descontextualizadas do “contexto natural” dos sexos, principalmente as que a autora considera enquanto “performatividades queer(Butler, 1998a, 1999, 2002), que possibilitam a emergência de práticas que interrompam a reprodução das normas de gênero.

As performances de gênero seriam ficções sociais impositivas, sedimentadas ao longo do tempo e que gerariam um conjunto de estilos corporais que aparecem como uma organização natural (e daí deriva seu carácter ficcional) dos corpos em sexos. Dessa forma, a performatividade não é um “ato” único, singular: são as reiterações das normas ou conjunto de normas. O fato de adquirir o status de um ato no presente gera o ocultamento das convenções das quais ela deriva.

Além disso, esse ato não é originalmente teatral: sua aparente teatralidade é produzida na medida em que sua historicidade não pode ser a todo tempo revelada.

Essa repetição estilizada formará o cimento das identidades dos gêneros. Mas as repetições em atos não são originalmente inventadas pelo indivíduo. Nas diferentes maneiras possíveis de repetição, na ruptura ou na repetição subversiva desse estilo, é que se encontrarão possibilidades para transformar o gênero.

A sociedade tenta materializar nos corpos as verdades para os gêneros através das reiterações nas instituições sociais (a família, a igreja, a escola, as ciências). A necessidade permanente do sistema em afirmar e reafirmar, por exemplo, que mulheres e homens são diferentes por sua natureza, indica que o sucesso e a concretização desses ideais não ocorrem como se deseja.

O que nos leva a pensar que o sistema não é um todo coerente e, conforme apontou Butler (1999), são as possibilidades de rematerialização, abertas pelas reiterações, que podem potencialmente gerar instabilidades, fazendo com que o poder da lei regulatória volte-se contra ela mesma, gerando rearticulações que apontem os limites da eficácia desse mesma lei regulatória.

Os discursos das/os transexuais revelam, entre outros aspectos, a eficácia do processo de interiorização de um discurso assumido enquanto verdade, o que lhes provoca sofrimentos uma vez que interpretam suas dores como problema individual. No entanto, e contraditoriamente, esses sentimentos também revelam os limites discursivos do modelo dimórfico. Para os/as transexuais, estes conflitos são inexplicáveis e muitos/as dizem que alimentam a esperança de que algum dia se descobrirá uma causa biológica para explicar suas condutas. Quais as práticas que levam o sujeito a se perceber e a se pensar como um “anormal”, uma “aberração”, não tendo o direito à existência?

O corpo-sexuado (o corpo-homem e o corpo-mulher) que dá inteligibilidade aos gêneros, encontra na experiência transexual os seus próprios limites discursivos, uma vez que aqui o gênero significará o corpo, revertendo assim um dos pilares de sustentação das normas de gênero. Ao realizar tal inversão, depara-se com uma outra “revelação”: a de que o corpo tem sido desde sempre gênero e que, portanto, não existe uma essência interior e anterior aos gêneros. Quando se problematiza a relação dicotômica e determinista entre corpo e gênero, outros níveis constitutivos da identidade também se liberam para comporem arranjos múltiplos fora do referente binário dos corpos.

Os corpos dos transexuais e dos não transexuais são fabricados por tecnologias precisas e sofisticadas que têm como um dos mais poderosos resultados, nas subjetividades, a crença de que a determinação das identidades está inscrita em alguma parte dos corpos. A experiência transexual realça que a primeira cirurgia que nos constituiu em corpos-sexuados não conseguiu garantir sentidos identitários, apontando os limites discursivos dessas tecnologias e a possibilidade rizomática de se criar fissuras nas normas de gênero.

Notas:

O livro de Dona Haraway, Simians, Cyborgs and women: the reinvention of nature marca uma virada no feminismo, ou, como sugere Preciado (2001), inicia um giro pós-feminista. Para Haraway as tecnologias do corpo que produzem o sujeito moderno, assentadas nos dualismos (mente x corpo, natureza x cultura, humano x animal), estão sendo dissolvidas, dando novos e sofisticados significados para a relação entre sexo (natureza) e gênero (cultura).

Uma das autoras que trabalha com a tese de “contrato heterossexual” é Monique Wittig. No seu livro La pensée straight (2001), publicado inicialmente em inglês, com o título The straight mind, Wittig faz um jogo com a palavra straight (direito, reto, direto, ereto, honesto, honrado), que no jargão gay significa heterossexual ou “aquele de mente reta”. A mente cor(reta), segundo Wittig, universaliza todas as suas idéias e é incapaz de conceber uma cultura que não ordene todos os seus conceitos sobre a base da heterossexualidade. Ainda segundo Wittig, a matriz do poder ou da dominação não é a dominação de classes, nem mesmo as raças, mas a heterossexualidade. Ou seja,o contrato sexual é o da heterossexualidade. Para Butler, no entanto, a separação radical que Wittig propõe entre heterossexual (reto) e gay é uma resposta do tipo de binarismo que Wittig define como o gesto filosófico divisório do pensamento reto. Desta forma, a separação radical proposta por Wittig entre heterossexualidade e homossexualidade não é certa, uma vez que há estruturas de homossexualidade psíquica nas relações heterossexuais e estruturas de heterossexualidade psíquica nas relações e na sexualidade gay e lésbica. O ideal de uma heterossexualidade coerente – que Wittig descreve como a norma e o usual do contrato heterossexual – configura-se como um ideal inatingível. Para uma interlocução da concepção de Butler sobre “heterossexualidade obrigatória” e a posição de Wittig, ver Butler (1999).

A concepção de “poder disciplinar” de Foucault (1993) nos auxilia a compreender os processos de construção dos corpos-sexuados e da incorporação de uma estilística corporal, uma vez que são produzidas a partir de um conjunto de estratégias discursivas e não discursivas, fundamentadas na vigilância das condutas apropriadas. Daí a referência à “panóptica dos gêneros”, em uma alusão a uma das características do poder disciplinar foucautiano.

 

FONTE:

http://209.85.215.104/search?q=cache:vbJ1yCBSAP8J:www.fazendogenero7.ufsc.br/artigos/B/Berenice_Bento_16.pdf+Berenice+Bento&hl=pt-BR&ct=clnk&cd=4

 

 

 














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