
O DEBATE SOBRE AS IDENTIDADES BUTCH" E "FEMME" NO MEIO ACADÊMICO
O modo como as lésbicas são representadas nas telas do cinema sempre nos leva
a pensar sobre a questão do "masculino" e do "feminino" nas relações entre
mulheres. Corky & Violet, Marijo & Loli, Brandon Teena & Lana, Amy & Linda, Luce
& Rachel, Jessica & Helen e tantas outras personagens não escapam aos rótulos "butch"
e "femme" e acendem a discussão sobre o que significam os modelos encarnados por
estes ícones dos filmes lésbicos. Alguns estudos dedicados à questão da
identidade lésbica trazem idéias interessantes para alimentar os debates. Aqui
vão algumas sugestões retiradas de um artigo de AMY GOODLOE. A referência
completa está no final do texto.
LÉSBICAS E FEMINISTAS
Nos anos 40 e 50, ser "butch" (masculinizada) ou "femme" (feminina) era quase uma norma de comportamento entre as lésbicas. Entre os casais de mulheres, o mais comum era que uma adotasse modos de se vestir masculinos e tomasse atitudes sexuais agressivas, enquanto a outra apresentava um visual dentro do padrão feminino e tinha atitudes sexuais passivas. Joan Nestle fez um importante estudo sobre as lésbicas neste período.
A partir dos anos 60, o movimento feminista provocou uma revisão deste padrão de relação baseado no desempenho de papéis masculinos e femininos. A crítica feminista se dirigiu contra as relações de dominação entre homens e mulheres e o movimento lésbico absorveu esta idéia, passando a defender a existência de uma forma mais igualitária de relação entre mulheres, que não repetisse a desigualdade opressora contida nos papéis de "homem" e de 'mulher" estabelecidos na sociedade. Esta herança do feminismo fez com que o próprio movimento lésbico passasse a criticar certo tipo de relação em que uma das partes desempenha o papel dominador de homem (como faz a "butch"/"ativa") enquanto a outra parte (a "femme"/"passiva") fica submissa e presa ao papel tradicional feminino. Toni McNaron, Elizabeth Wilson e Lillian Faderman realizaram estudos dentro deste ponto de vista, mostrando as diversas formas de opressão que se reproduzem nas relações entre mulheres.
Esta visão inspirada pelos estudos de cunho feminista foi alvo de alguns questionamentos por parte de Gayle Rubin. Existe uma forma "correta" de ser homossexual? Não estaria aí mais uma tentativa de criar normas de comportamento sexual? Como conseqüência destas normas, as relações entre mulheres baseadas no desempenho de papéis "masculinos" e "femininos" passam a ser vistas como erradas ou desviantes e se tornaram marginalizadas dentro da comunidade lésbica. Faz sentido que o movimento lésbico, lutando por tanto tempo contra a discriminação, pratique discriminação em seu próprio seio? Por que razão as mulheres com aparência masculina provocam tanto incômodo? Há o temor de que estas mulheres, ao assumirem "posturas masculinas", acessem privilégios tidos como exclusivos dos homens - não só os sexuais, é claro, como também os econômicos, como por exemplo, alcançando funções poderosas e muito bem remuneradas? Isto é algum tipo de "ameaça à ordem" estabelecida no universo heterossexual? A aparência masculina assumida pelas lésbicas as torna visíveis demais para a sociedade, incomodando aos que preferem permanecer "invisíveis" e em segurança?
MASCULINOS E FEMININOS
As primeiras mulheres a exibir aparência e atitudes masculinas na sociedade eram vistas como "invertidas", ou pessoas que, por um "defeito congênito", nasceram no "sexo errado". A sociedade não sabia ainda explicar como alguém poderia ser biologicamente do sexo feminino e ostentar traços de 'masculinidade'. Na visão dominante na sociedade, havia um elo entre o sexo biológico e o gênero, por isso mulheres masculinizadas eram contradições ambulantes, cuja existência era atribuída a um "defeito de fábrica". Madeline Davis e Elizabeth Kennedy mostram que esta performance masculinizada poderia ser vista como um meio de resistência a ambientes hostis e como uma forma de transgressão dos limites de gênero estabelecidos pela sociedade, desafiando a ideologia de que comportamentos "masculinos" e "femininos" estão baseados em diferenças sexuais inatas.
Dentro desta linha de debates, Esther Newton e Shirley Walton investigam se o desempenho de papéis "butch" e "femme" simplesmente reproduz os papéis heterossexuais ou de alguma maneira os desafia. Estes estudos procuram mostrar que lésbicas que aparentam masculinidade não desejam necessariamente se tornar homens, mas adotam a aparência masculina como expressão da rejeição do papel feminino, tal como este é tradicionalmente definido. Estas mulheres rejeitam as convenções sobre o que é ser "feminina", principalmente em termos de vestimenta, postura, desempenho de atividades, etc. Neste ponto de vista, não há uma imitação, mas um modo particular de viver e de amar, que abre novas possibilidades de "exercer" o "feminino" e o "masculino".
ESSE PAPO DE NATUREZA...
Muito importante neste conjunto de debates foi a discussão sobre a relação entre sexo, gênero e natureza. Parte significativa da afirmação lésbica contou com o questionamento da idéia de heterossexualidade como um dado da natureza humana. Uma importante figura a discutir esta questão foi Adrienne Rich, que argumentou que, embora a cultura faça crer que a heterossexualidade é "natural", ela é, ao contrário, "compulsória" ou imposta como uma norma pela sociedade, que também exerce controle para que haja o cumprimento da regra. Adrienne Rich chamou a atenção para o fato de que quando se acredita que o normal é ser heterossexual, a conseqüência é que qualquer outra forma de expressão da sexualidade humana passa a ser considerada como um desvio ou uma "aberração". Além disso, para o senso comum, o que está na natureza não pode ou não deve ser mudado... Tal forma de pensar traz muitas conseqüências para as pessoas que a aceitam.
Durante muito tempo o comportamento homossexual foi classificado como uma doença. Isto significa que a própria medicina apoiou a visão predominante na sociedade de que a única forma correta de amar era amando pessoas do sexo oposto. A legislação também entrou como importante forma de controle, ao classificar como criminoso o comportamento homossexual. Hoje estas visões já se desfizeram ou sofreram modificações na maior parte dos países do mundo. Entretanto, mesmo quando não se vê mais a homossexualidade como um crime ou uma doença, é comum que permaneça associada a ela uma idéia incômoda de que alguma coisa ali não está certa, já que o padrão continua sendo acreditar que o "normal" ou "natural" é que pessoas de um sexo gostem de outras do sexo oposto. Esta forma de pensar permite que algumas pessoas ainda riam, sintam pena, ofendam e cometam outros atos de discriminação e violência contra homossexuais.
É TUDO CONSTRUÇÃO?
A partir destas discussões sobre "butches" e "femmes", começa a ficar forte a idéia de que "feminilidade" e "masculinidade" não são exatamente expressões da natureza biológica, mas resultado da manipulação de códigos e símbolos, tais como gestos, vestimentas, posturas, modos de falar, etc. Não são apenas as pessoas do sexo masculino que podem desempenhar papéis masculinos, pois estes não estão necessariamente ligados a nenhuma base biológica. As lésbicas que se apropriam de símbolos e códigos antes reservados a pessoas do sexo masculino estão, de certo modo, cruzando fronteiras estabelecidas pela sociedade e desafiando padrões que definem o mundo heterossexual tradicional.
Os estudos seguintes investirão na idéia de que a hierarquia de gêneros está fincada em uma construção social de papéis e não em comportamentos sexuais inatos. O desempenho de papéis passa a ser visto como uma performance, como se fosse uma encenação, chamando-se a atenção para o sentido do termo "papel" como um artifício ou máscara com o qual se pode flertar de modo inconstante, ao invés de fixo e imutável (como seria se fosse um "comportamento natural"). Como se as pessoas pudessem abrir um baú cheio de "peças" que remetem ao masculino e ao feminino e ir compondo seu próprio "personagem". Teresa de Lauretis apresenta estudos importantes nesta linha de argumentação.
Judith Butler radicaliza de vez a discussão. Ela afirma que as lésbicas não estão imitando o "original", porque o "original" não existe. Homens também usam de performances para construir sua masculinidade (só que os homens são legitimados e incentivados pela sociedade). Dentro deste ponto de vista, a própria heterossexualidade é uma "imitação" de uma natureza idealizada e não uma expressão verdadeira da sexualidade. A paródia homossexual da heterossexualidade é uma imitação da imitação, uma cópia da cópia, para a qual não existe 'original'. Nos tempos atuais, como as referências disponíveis são muitas e variadas, reina um "caos" de aparências, símbolos e códigos que sinalizam várias identidades, várias formas de ser lésbica (e também de ser heterossexual!).
TEORIA QUEER
No final dos anos 80 surge a teoria queer, que vai trabalhar em torno da idéia de que as identidades sexuais são totalmente dependentes de representações. As pessoas descobrem suas identidades sexuais trabalhando com e contra as identidades que a cultura disponibiliza. A fluidez do gênero se tornou mais aceitável na sociedade. Não há identidades autênticas nem desviantes, mas personagens construídos. As idéias de 'pansexualismo', 'polimorfismo sexual' indicam que o desejo das mulheres pode não estar orientado em direção a apenas um gênero. Argumenta-se agora que rótulos "masculino" e "feminino" simplificam e generalizam identidades complexas a partir de uma falsa dicotomia. Trabalha-se com a idéia de um "continuum" de múltiplas formas de expressão sexual.
O debate está longe de terminar por aqui. Argumenta-se, por um lado, que pode ser libertador "desconstruir" a idéia de um modelo de identidade lésbica, pois assim ninguém pode se auto-proclamar o representante "correto" ou "normal" deste padrão e, conseqüentemente, não pode acusar outros de serem "desviantes". Por outro lado, se não há uma "identidade lésbica", como as lésbicas poderão se unir para lutar contra a homofobia? Como lidar com o risco de que a ausência de uma identidade reconhecida entre os membros de um grupo marginalizado o desmobilize politicamente?
Muita goma pra mascar, muitas idéias pra debater...
Este texto foi elaborado com base nas informações
contidas no ensaio de 1993 de AMY GOODLOE, da Universidade do Colorado, chamado
"Lesbian identity and the politics of butch-feme roles" no qual a autora
apresenta e discute vários estudos sobre a questão da identidade lésbica. A
maior parte dos estudos citados no ensaio de Goodloe não foi publicado em língua
portuguesa. O original deste texto pode ser encontrado em: www.lesbian.org
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