
Deus e a Homossexualidade
Flávio Alexandre
Ao contrário do que dirão muitos fanáticos
religiosos, fundamentalistas e preconceituosos, não estou possuído pelo demônio,
tampouco mantenho relações interpessoais com a citada figura folclórica. O que
pretendi ao confeccionar esta homepage é levar um pouco de alento aos milhares
de excluídos e massacrados por algumas religiões que se dizem cristãs. Ora, quem
se diz seguidor de Cristo não pode impor tamanho sofrimento como é imposto aos
homossexuais. Julga-se um ser humano com tamanha e assustadora facilidade que se
torna fácil entender qual é o Deus real e qual é o Deus dos homens. A visão
medieval de um ser que pune, que se vinga e que julga não condiz com a
civilização atual. Vejam bem, eu disse "civilização" e civilidade significa
estar apto a participar da vida em sociedade. Civilidade quer dizer respeito ao
seu semelhante e respeito aos seus direitos, desde o direito à vida até o
direito de expressão. Entretanto, muitos religiosos ferem este direito sob o
pretexto de pregar a palavra de Deus. E se pregar a palavra de Deus é condenar
nosso semelhante ao castigo eterno do igualmente folclórico reino dos infernos,
então fujamos desta palavra. Um ser que sente ira não condiz com a visão de Pai
Justo e infinitamente bom. Há algo de muito errado na visão de determinadas
religiões.
Confesso que a homofobia sempre me assustou. Seja batalhando pelos Direitos
Humanos, como advogado ou como cidadão, este gênero de ódio humano nunca foi
muito bem compreendido pelo meu espírito. O que mais me espantou e ainda me
perturba é o fato de que inúmeras pessoas que frequentam igrejas, chamam a si
mesmas de servas de Deus, são as primeiras a lançarem as pedras, sem ao menos
avaliar se estão em condições de atirar a primeira delas. Mais que um ódio, a
homofobia deve ser vista como um crime. E um crime grave, passível de prisão. A
partir do momento que se nutre ódio e aversão por um indivíduo, e este ódio
configura-se como um ato positivo, já ocorre o crime. Mas, infelizmente, esta
configuração de crime, dentro da legislação brasileira, não está amplamente
amparada pela total inércia de nossos legisladores diante de um problema
crescente e do qual não se pode mais fugir. A homossexualidade convive conosco,
no nosso dia-a-dia e ninguém pode fechar os olhos para isso. E fechar os olhos é
demonstrar ignorância diante de um fato que permeia a vida social desde os
primórdios da humanidade. Indivíduos homossexuais sempre existiram e existirão.
Seja no trabalho, na vida social ou mesmo no seio familiar, a homossexualidade
precisa ser encarada como algo natural e livre para se expandir. Sim,
expandir-se, pois sua expressão natural passou a ser severamente reprimida a
partir do advento do Cristianismo. As idéias preconceituosas e errôneas noções
religiosas são as principais vilãs neste problema que toma aberta discussão no
fim do século XX. Infelizmente, muito ainda há que ser discutido, seja social ou
juridicamente, mas o importante é que já existe uma pré-disposição da sociedade
para discutir este tema tão polêmico para alguns, mas tão natural para outros.
Uma pena que a visão positiva da homossexualidade esteja ofuscada pelo medo e
ódio infundados e baseados em mero preconceito. A literatura está repleta de
pessoas que afirmaram admirar um parente ou amigo até o dia em que descobriram
se tratar de um indivíduo homossexual. De repente, todos os valores e qualidades
daquele ente querido desapareceram, num passe de mágica, simplesmente porque sua
orientação sexual revelada não “condizia com os princípios da sociedade”.
É neste sentido que surge uma segunda questão: o que é condizente com os
princípios sociais? Matar e roubar não é condizente. Mas nosso Código Penal
ampara aquele que mata para se proteger e dá como atenuante o fato de alguém
roubar para sobreviver, como o roubo de alimentos, por exemplo. Então, proibir o
indivíduo de matar e roubar não pode ser visto como algo perfeito, acabado e não
mais discutível. Pelo contrário, surge a discussão em torno da ética humana,
avaliando até que ponto algo pode ou não ser aceitável. A dúvida que prevalece é
por quê matar ou roubar é aceitável, até determinado ponto, na esfera social,
mas não a homossexualidade? Por quê um indivíduo que manifesta uma orientação
sexual distinta da orientação dita como “natural” deve ser visto como um
indivíduo à margem da sociedade? Que crime cometeu um homossexual por ter se
desenvolvido como tal? Quantos excelentes médicos, advogados, artistas,
estudiosos não brindaram o mundo com seu talento, mesmo sendo homossexuais, e
nem por isso deixaram de ser menos humanos? Até que ponto a hipocrisia de alguns
vai ditar as regras da vida em sociedade? Difícil responder nestes dias
turbulentos em que a falta de informação e a ignorância ainda prevalecem no meio
em que vivemos.
Outro ponto que sempre me perturbou, e que será a temática principal desta obra,
é a alegação de que a homossexualidade é um pecado condenável por Deus. Ora, se
a homossexualidade fosse realmente um pecado, por quê existem tantos
homossexuais, que não aceitam sua condição, implorando a Deus para que
“transforme-os” em indivíduos heterossexuais, porém, sem sucesso? Se Deus
estivesse insatisfeito com o que Ele próprio criou não atenderia o pedido de
Seus filhos desesperados? Ou os homossexuais teriam “escapado” do poder de Deus
e se tornaram “criações imperfeitas”? Pode-se admitir um deus que seja
imperfeito e assim a sua obra? Ou será que estamos colocando sobre Deus uma
responsabilidade que não Lhe pertence que é a aversão aos homossexuais, Seus
filhos? Até que ponto o homem pode usar sua própria palavra e dizer que são as
palavras de Deus? Pode Deus odiar? Pode Deus se arrepender do que criou? Se a
resposta for afirmativa, perdoem-me os extremamente religiosos, mas então Deus é
uma farsa. Um Deus bom, justo e misericordioso não pode sentir ódio ou rancor,
muito menos condenar alguém ao sofrimento eterno. Eu entendo, particularmente,
que o pecado está no mau que fazemos ao nosso próximo e não na expressão de sua
natureza. O pecado, da mesma forma, está na omissão diante da caridade. Amar é
dar qualquer coisa, seja um olhar, seja uma palavra, seja um sorriso. Mais que
isso, Amar é compreender. Compreender que somos todos filhos de um mesmo Pai,
recebemos uma missão particular quando viemos para este planeta, mesmo sendo,
por exemplo, a de procriar, como determina a Igreja para os heterossexuais, seja
a de conter o boom do avanço demográfico, como lembram os cientistas, para os
homossexuais. Acredito que heterossexuais e homossexuais nasceram neste mundo
para algo maior do que isso. Nasceram para amarem-se uns aos outros, como
desejou Cristo, que não via diferenças, mas somente filhos de um mesmo Pai.
Este trabalho tentará apontar os principais conflitos envolvendo a religião
cristã e a Bíblia no que diz respeito à homossexualidade. Muitos afirmam que
esta vertente da sexualidade é condenada pela Bíblia. Outros afirmam que Deus
jamais se referiu à homossexualidade e que sua condenação foi manipulada pelos
tradutores dos textos sagrados. Muitos estudiosos admitem que muito se alterou,
não só em prejuízo dos homossexuais, mas da humanidade como um todo, pois tanta
repressão religiosa contra a expressão natural da sexualidade humana, ao longo
de séculos, motivada por algumas igrejas cristãs, principalmente, criou uma
humanidade sexualmente neurótica e que hoje tenta se equilibrar entre falsas e
reais convicções. Hoje, a liberação sexual toma corpo e ganha terreno numa busca
frenética para alcançar uma ordem social. Na verdade, não são os valores que
estão perdidos, como pregam alguns, mas o senso de direção dos homens
encontra-se alterado. Sente-se, neste fim de milênio, uma necessidade do homem
se encontrar. E não é reprimindo ou liberando sua sexualidade que isso se dará,
mas dar a ele a liberdade de escolha para ser o que realmente é. Se cada ser
puder se expressar com naturalidade e ser aquilo que realmente é, o primeiro
passo para o auto-conhecimento já terá sido dado.
Que este trabalho auxilie, de alguma forma, na busca deste reencontro consigo
mesmo e na certeza de que todo ser humano, em essência, é uma centelha divina.
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11 Anos de uma história mal contada
Homossexualidade: um amor que não diz seu nome
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Como garantir direitos na relação com ela
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