
A vivência preconceituosa entre homossexuais: uma vivência presente na psicoterapia.
Grazielly Rita M. Giovelli
Rosângela Dall'Agnol
A idéia de escrever este texto surgiu com intuito de registrar um tema presente nos atendimentos psicoterápicos, realizados no SAT Serviço de Atendimento Terapêutico do GAPA/RS e em consultório particular.
Apesar do público atendido ser bastante variado e o atendimento contemplar especificidades quanto a histórias de vida e conflitos, pode-se contatar a incidência de falas recorrentes no que tange à vivência preconceituosa expressa por homossexuais em relação a si próprios e seu grupo de iguais, tais como “gostaria de não sentir o que sinto ... (desejo por outro homem)”, “se soubesse de um remédio que pudesse me transformar em heterossexual, certamente o tomaria”, “tenho vergonha de meus amigos homossexuais ... (apesar de ser um deles)”.
Encontramos na literatura uma gama de assuntos relacionados ao tema sexualidade, preconceito e discriminação. Porém estes enfocam a ação sofrida por homossexuais sem mencionar o preconceito destes em relação a si mesmos e seus iguais. Este aspecto tornou-se presente na medida que os atendimentos foram ocorrendo tornou-se evidente o desconforto vivenciado pelos clientes em relação à sua homossexualidade e, com isto, o interesse em compreender o tema, visando identificar os fatores que contribuem para esta vivência.
A sexualidade humana é, em sua essência, uma energia psíquica direcionada para a auto descoberta e para o vínculo com o outro, através do prazer.
Desde o início dos tempos, alusões à sexualidade humana puderam ser observadas. Também mitos, crenças e tabus sexuais são passados de geração à geração, segundo a tradição de cada cultura. As diferentes orientações sexuais existentes homossexualidade, bissexualidade e heterossexualidade, nem sempre possuem a liberdade de expressão que o discurso liberal propaga na contemporaneidade.
No século XIX, a medicina definiu a homossexualidade como doença fisiológica causada por distúrbios genéticos ou biológicos e, no início do século XX, a psicanálise a categorizou como anormal definindo-a como distúrbio da sexualidade. Na década de 60 apareceram os primeiros movimentos gays e, na seqüência, a Associação Americana de Psiquiatria afirmou que a homossexualidade não é uma doença, negando a existência de causas psicológicas específicas, situando-se no quadro das orientações sexuais. Mas, será que houve realmente uma modificação?
O trabalho psicoterápico com a população homossexual envolve a avaliação de crenças pessoais e do ambiente social, identificando as mensagens recebidas sobre o próprio eu e a sexualidade, com o objetivo de compreender as dificuldades em relação à auto-aceitação, consolidar uma identidade gay positiva, identificar evidências reais e fantasiosas e desenvolver junto ao cliente uma rede social de amigos, independente da orientação sexual destes. E, de grande relevância, trabalhar o preconceito sobre si, que permeia os pensamentos de muitos homossexuais.
A priori poderíamos considerar nossa cultura como privilegiada no que tange ao tema orientação sexual, pois se fala sobre o mesmo. Porém, há uma grande discrepância entre linguagem falada e postura adotada em nosso cotidiano, visto a repressão mantida frente a diversidade de condutas, fazendo com que prevaleça a determinação de com quem realizar o ato sexual sobre a manifestação de um afeto, o que acarreta a vivência de uma sexualidade “condenada”, que denigre o diferente.
A psicoterapia visa auxiliar os pacientes homossexuais a lidar com o preconceito que perdura em nosso meio, por meio de heranças de valores e crenças, de acordo com nossas percepções. Entretanto, muitas vezes, na tentativa de ajudar a lidar com estes preconceitos, protelamos a possibilidade de observar que, muitas vezes, o preconceito permeia pelos pensamentos dos próprios pacientes, remetendo-os a conflitos ainda maiores, ou seja, ao transpor o preconceito para si mesmo pode ser mais difícil de lidar do que pensar que este só existe nos outros.
O paciente expondo o preconceito que tem de si mesmo, demonstra baixa auto-estima. Contudo, no decorrer do atendimento é possível trabalhar este tema, resgatar a auto-estima, trabalhar valores e referenciais significativos para o cliente proporcionando, assim, uma melhor qualidade de vida para o mesmo.
Seres humanos são movidos por emoções, na ânsia de viver e buscar a felicidade somente completa se nos sentimos bem conosco. Torna-se imperioso assumir o próprio desejo e para tanto, trabalhar nosso modo de ver e viver nossa sexualidade, independente da orientação da mesma. Esta pode ser a grande contribuição da psicoterapia neste momento, enquanto nosso ambiente ainda não aceita a diversidade.
Grazielly Rita M. Giovelli é Psicóloga. Voluntária do Serviço de Atendimento Terapêutico do GAPARS e Coordenadora do grupo de Voluntários do GAPARS.
Rosângela Dall'Agnol é Psicóloga clínica. Coordenadora voluntária do SAT GAPARS.
http://www.somos.org.br/indice.php?cat=artigos&id=1