
Memória - DIA DA VISIBILIDADE: 11 Anos de uma história mal contada
Míriam Martinho
Quando a idéia do dia da visibilidade foi lançada em 1996, havia menos de 6
grupos lésbicos em todo o Brasil (na foto acima vemos os 7 grupos lésbicos que
existiam em 2001), e os grupos existentes eram todos diminutos. Como então pôde
o dia da visibilidade ter sido estabelecido por mais de 100 ativistas lésbicas?
Em 11 anos, desde a proposta de um dia da visibilidade, apenas 4 deles tiveram
efetivamente celebrações da data. Por quê? Para responder essas perguntas vamos
fazer uma pequena viagem no tempo da história da organização lésbica no Brasil
até 2003 quando o dia visibilidade tira o manto da invisibilidade.
INTRODUÇÃO
Tendo em vista que a história que se conta sobre a origem e desenvolvimento do
dia da visibilidade lésbica viola a história da organização lésbica no Brasil,
distorcendo seus fatos e sua evolução natural, cumpre tornar visíveis essas
distorções. Cumpre não só porque hoje várias pesquisadoras vêm rastreando o
desenrolar dessa história e merecem ter uma visão mais acurada dos fatos como
também porque as ativistas lésbicas do presente e do futuro e a população
lésbica merecem saber o berço das datas a que são convidadas a comemorar. Para
tal, façamos uma breve retrospectiva da organização lésbica em nosso país
chegando até o surgimento dos dias de comemoração da lesbianidade brasileira.
DÉCADA DE 80: INÍCIO DA ORGANIZAÇÃO LÉSBICA NO BRASIL
A organização lésbica no Brasil surge no início de 1979 dentro do incipiente
Movimento Homossexual Brasileiro (MHB), mais precisamente no grupo Somos de São
Paulo. Forma-se nesse grupo um subgrupo de mulheres, em função de uma matéria
sobre lésbicas para o Lampião da Esquina (maio de 79), que depois se consolida
de forma autônoma em relação ao grupo misto. Como na época, o feminismo estava
em seu auge e a questão de gênero sempre foi um problema dentro do Movimento
Homossexual (hoje LGBT), este subgrupo, identificando-se com o feminismo, se
autodenomina subgrupo lésbico-feminista, registrando também outras variantes
deste mesmo nome até separar-se do grupo misto (maio de 1980), quando passa a
chamar-se Grupo Lésbico Feminista (LF). Este grupo por sua vez, já no final de
1980, sofre um racha e enfraquecido subsiste até meados de 1981, sendo
formalmente substituído pelo Grupo Ação Lésbica Feminista (GALF) em outubro de
1981. O GALF, por sua vez igualmente, será o único grupo lésbico a subsistir por
toda a década de 80 até 1989, quando cede sua vez à Rede de Informação Um Outro
Olhar, formalmente constituída em abril de 1990. Essas diferentes denominações e
substituições correspondem a mudanças não só nos coletivos que formaram esses
grupos (que tem elos em comum) como nas influências ideológicas que os
nortearam, cuja abordagem foge dos objetivos desse artigo.
Aqui interessa apenas lembrar que o Movimento Homossexual, que nasce em 1978 e
tem seu pico de expansão em 1980, começa a declinar a partir de 1981,
mergulhando numa grande crise até 1983/84, devido a conflitos internos e a duas
questões que se mesclaram numa combinação explosiva: o questionamento sobre a
identidade homossexual e a chegada da AIDS, alcunhada em seus primórdios de
câncer gay, peste gay. De meados da década de 80 até o início da década de 90, o
Movimento Homossexual viverá numa espécie de limbo político, subsistindo graças
aos esforços heróicos de grupos como o GALF (SP), GGB (BA), Triângulo Rosa (RJ)
e Dialogay (SE), embora outras agremiações femininas, masculinas ou mistas
tenham surgido nesse período, todas contudo de vida efêmera.
Por outro lado, o Movimento Feminista (MF), para onde as lésbicas migram por
falta de opção inclusive, vive seu ápice na década de 80, ocupando na mídia,
ainda que de forma mais modesta, o lugar que hoje ocupa o Movimento LGBT, com
feministas escrevendo em colunas na grande imprensa, coordenando programas de TV
e tendo suas reivindicações sendo incorporadas à sociedade em geral.
No que tange às lésbicas, contudo, o Movimento Feminista foi uma verdadeira
madrasta. Após o impacto do aparecimento do subgrupo lésbico-feminista em
eventos feministas, em 1980, o MF vai absorver individualmente as militantes do
LF bem como de outros grupos lésbicos que existiam então (Terra Maria) ao mesmo
tempo em que despolitiza a questão lésbica. Ainda que permitindo uma ou outra
palestra ou oficina lésbica em seus encontros ou mesmo dando apoio eventual a
manifestações lésbicas (como a do 19 de Agosto), liberalidades sempre seguidas
da admoestação de que a questão de gênero era a mais importante e não havia
espaço para grupos lésbicos específicos, a política do Movimento Feminista para
lésbicas, durante toda a década de 80 e 90, posição só alterada em 2002, foi a
da invisibilidade. As feministas homossexuais, em número razoável dentro do MF,
ou simplesmente se omitiam sobre a questão lésbica (como se não tivessem nada
com isso) ou hostilizavam abertamente todas as tentativas de politização do
assunto.
Cansadas dessa situação e de outras tantas contradições do feminismo, o Grupo
Ação Lésbica Feminista se afasta do MF em 1988, deixando um vácuo que será
preenchido por feministas homossexuais que, ao contrário da maioria, achavam que
o MF deveria sim assumir politicamente a questão lésbica, embora permanecessem
com a idéia de que seu campo de atuação deveria ser somente o próprio movimento.
Uma reunião, realizada durante o X Encontro Nacional Feminista em Bertioga
(1989), originará um coletivo de onde surgirão os primeiros grupos lésbicos (3)
a subsistirem por mais tempo, no período que vai de 1989 a 1996,
concomitantemente ao surgimento da Rede de Informação Um Outro Olhar (também em
1989).
DÉCADA DE 90: RESSURGIMENTO DO MOVIMENTO HOMOSSEXUAL
Nesse ínterim, o Movimento Homossexual começa a ressurgir das cinzas, sendo o
ano de 1993, um divisor de águas nesse sentido, quando grupos de São Paulo, como
a Um Outro Olhar, o grupo Deusa Terra (lésbico), ativistas lésbicas
independentes, como Monica Pita, e grupos gays como o incipiente núcleo de gays
e lésbicas do PT e o grupo Etecétera e Tal, do psicanalista Arnaldo Domingues
organizam, o VII Encontro Brasileiro de Lésbicas e Homossexuais, em Cajamar
(set/1993, SP).
O Movimento Homossexual que renasce a partir dos primeiros anos da década de 90,
ao contrário de seu antecessor, do final dos anos 70 e começo dos 80, vai ter um
perfil fundamentalmente reformista e mais androcêntrico do que a da primeira
geração, girando em torno das questões dos gays. Inserir a palavra lésbica no
título do VII encontro do movimento, a fim de evidenciar a questão das mulheres
homossexuais, exigiu consultas nacionais, abaixo-assinados e troca de desaforos
entre as ativistas lésbicas e grupos gays mais tradicionalistas, como o Grupo
Gay da Bahia, que viam na mudança de nome uma ameaça à unidade do movimento. Mas
a alteração foi assumida e, no próprio encontro, houve outra alteração que
resultou na denominação Encontro Brasileiro de Gays e Lésbicas. No VIII
Encontro, em Curitiba (jan/1995), as travestis também reivindicaram a inserção
do T, sendo acatadas de forma muito mais tranqüila, e os Encontros passaram a
denominar-se Encontros Brasileiros de Gays, Lésbicas e Travestis (EBGLT),
denominação que prevalece até hoje.
No encontro de Curitiba, também foi criada a Associação Brasileira de Gays,
Lésbicas e Travestis (ABGLT) que teve como fundadoras as ativistas da Rede de
Informação Um Outro Olhar e do nascente Grupo Lésbico da Bahia (GLB), além de
ativistas dos grupos gays e travestis. Do período que vai de 1993 a 1996,
desaparecem dois dos grupos lésbicos do início da década de 90, o Estação Mulher
e o Deusa Terra, e permanecem a Rede de Informação Um Outro Olhar e o Coletivo
de Feministas Lésbicas (todos de São Paulo) este último que, mudando sua
política de não trabalhar com homens, passa a atuar também no Movimento agora já
GLBT.
CHEGANDO À IDÉIA DO DIA DA VISIBILIDADE
No ano seguinte, em 1995, o jovem grupo Arco-Íris, do Rio de Janeiro, e outros
grupos cariocas sediam a 17ª Conferência da ILGA (Associação Gay e Lésbica
Internacional), de 18 a 25 de junho de 1995, que culminará com Marcha pela
Cidadania Plena de Lésbicas e Gays, primeira manifestação de rua realizada no
Brasil desde 1981 (quando ocorreu, em São Paulo, a primeira passeata homossexual
de protesto contra as prisões arbitrárias de gays, lésbicas, travestis e
prostitutas pelo famigerado delegado Richetti). No contexto da Conferência,
surgem mais dois grupos lésbicos: o Movimento D’Ellas, fundado pela ativista
Yone Lindgren, que militara na primeira geração do MHB e que retornava ao
movimento, e o Coletivo de Lésbicas do Rio de Janeiro (COLERJ), formado por
mulheres que vinham de experiências tanto no movimento feminista quanto no
movimento negro.
Embora recém-nascido, o COLERJ se propõe a coordenar a Secretaria de Mulheres da
ILGA, e a Rede de Informação Um Outro Olhar, que já vinha de uma boa experiência
internacional, foi convocada a dividir a secretaria com esse grupo a fim de
apoiá-lo. Em julho de 1995, os dois grupos se reúnem na sede da Rede de
Informação Um Outro Olhar, em São Paulo, e discutem propostas para a Secretaria
de Mulheres da ILGA. O COLERJ, contudo, pensa na Secretaria fundamentalmente
como um apoio para a disseminação de encontros lésbicos no Brasil, a fim de
incentivar a criação de grupos lésbicos e a criação de um movimento lésbico.
Aqui cabe um parêntese para, retornando a 1993, lembrar que o grupo Deusa Terra
(SP), durante a tentativa de organizar o IV Encontro Latino-Americano de
Lésbicas Feministas no Brasil (1993), já havia proposto o mesmo, ponderando
sensatamente que, em vez de fazer um encontro internacional, se passasse a
gastar energias para a fundação de grupos lésbicos em nível nacional, proposta
que não foi aceita. O COLERJ retoma essa idéia, que tem anuência da Rede de
Informação Um Outro Olhar, mas não consegue desenvolvê-la de imediato por
conflitos internos do grupo que o levaram a um racha no segundo semestre de
1995.
Superando esses conflitos em 1996, o COLERJ organiza em 29 de agosto do mesmo
ano, o primeiro seminário nacional de lésbicas (SENALE), realizado num hotel do
Rio de Janeiro, com financiamento governamental. Em homenagem ao I SENALE,
lançou-se de fato, em seu contexto, a idéia do dia 29 de agosto como dia
nacional da visibilidade lésbica pelas participantes do evento, participantes
que, todavia, de forma alguma conformaram o número de mais de 100 ativistas.
Como bem dito acima, o SENALE foi pensado como um estimulador da formação de
grupos lésbicos no Brasil porque exatamente na época em que foi realizado, 1996,
não havia nem meia dúzia de grupos lésbicos em todo o território nacional, e
todos os grupos lésbicos eram diminutos. De onde teriam aparecido então essas
mais de 100 ativistas lésbicas que teriam estabelecido o dia 29 de agosto como
dia da visibilidade lésbica? De outra dimensão do espaço-tempo?
Para desvendar esse mistério, cumpre dar um salto de 7 anos à frente desse
momento, para o ano de 2003, quando ocorre em São Paulo o V SENALE durante as
celebrações da 7ª Parada do Orgulho GLBT. Este será o primeiro SENALE que
contará com a presença de mais de 100 participantes, não necessariamente
ativistas lésbicas, porém sem dúvida mais de 100. Os anteriores, no Rio, em
Salvador, Belo Horizonte e sobretudo em Fortaleza reuniram em média de 40 a 60
participantes, sendo o de Fortaleza o mais desestruturado de todos, ao contrário
do que se deveria esperar pela seqüência.
Citando a mim mesma, na revista Um Outro Olhar, sobre o II SENALE de Salvador
(24-28/09/97):“Não se sabe se pelo número reduzido de pessoas, considerando
tratar-se de um evento nacional, ou se por alguns erros organizativos ou
políticos que impediram um aprofundamento das questões, o certo é que o encontro
ficou meio chocho, meio morno demais (Revista Um Outro Olhar, 27. Encontro Morno
em Salvador. Miriam Martinho).”
Citando Neli Aparecida de Farias, participante do III SENALE: “Dos dias 25 a 27
de setembro de 1998, realizou-se em Betim, Minas Gerais, o III Seminário
Nacional de Lésbicas (III SENALE), com mulheres de algumas cidades do Brasil
como Campinas, São Paulo, Brasília, Rio e Salvador, além de gente das próprias
gerais, somando aproximadamente 40 participantes.” E sobre o clima desse evento,
agudizado no encontro posterior, cito Virgínia Figueiredo, outra participante:
“Como fomos todas custeando nossas despesas,... parecia que estávamos num retiro
para descanso, para bater papo, etc.., pois a grande maioria (desestimulada pela
falta de oficinas) preferia ficar bebendo e tomando banho de piscina (Revista Um
Outro Olhar, 29. Considerações sobre o III SENALE).”
O IV SENALE, realizado no Ceará, de 29/08-01/07-2001, seguiu o mesmo estilo,
caracterizando-se por ser um encontro para a realização de uma enquete/pesquisa.
O encontro foi tão desestruturado que as duas integrantes da Um Outro Olhar que
dele participaram disseram que não havia o que relatar e que, para simplesmente
esculhambar o evento, era melhor se manterem caladas. Lamento essa postura,
pois, ficamos sem um registro do encontro com algum distanciamento crítico. De
qualquer forma, deste SENALE saiu a decisão de realizar o V SENALE em São Paulo,
ao qual a Rede de Informação Um Outro Olhar se comprometeu a apoiar na forma de
divulgação ao menos. Nos meses posteriores, contudo, até a realização do evento,
não recebemos qualquer notícia ou informação a respeito da organização do mesmo,
no velho esquema de comadrio que sempre caracterizou a estruturação desses
encontros (em todas as suas versões).
2003: LÉSBICAS NA PARADA E O LANÇAMENTO DO DIA DO ORGULHO LÉSBICO!
De agosto de 1996 (quando se registra a idéia do dia da visibilidade) até junho
de 2003, a questão dos direitos homossexuais vai ganhar cada vez mais
visibilidade na sociedade, sobretudo na mídia, mas não houve comemorações do dia
da visibilidade lésbica em todo esse período. O que surgiu nesse sentido foram
as Paradas do Orgulho GBT que hoje tomam conta do país inteiro.
Ainda durante a 17ª Conferência da ILGA, grupos paulistanos presentes ao evento
refletiram que seria interessante trazer o próximo EBGLT para São Paulo
novamente e assim acabou ocorrendo. Em fevereiro de 1997, a Rede de Informação
Um Outro Olhar organizou, praticamente com os mesmos grupos do VII Encontro, o
IX Encontro Brasileiro de Gays, Lésbicas e Travestis (um encontro muito
tumultuado por conflitos em sua maioria promovidos por ativistas GLBT petistas),
cujo maior mérito foi ter produzido o embrião das futuras paradas que hoje levam
milhões às ruas (os participantes saíram em passeata do Largo do Arouche,
passando pela República, pelo Teatro Municipal, cruzando a mitológica Ipiranga
com a Avenida São João e terminando atrás da Igreja da Consolação). Nesse mesmo
ano, em junho, entusiasmados com a experiência do IX Encontro, ativistas gays
repetem o feito se reunindo em frente da Gazeta e seguindo em passeata pela
avenida Paulista até a praça Roosevelt, no percurso que até este ano (2006)
identificou as grandes Paradas do Orgulho de Sampa.
NNa esteira das grandes Paradas de São Paulo, que continuaram num crescendo a
cada ano, as ativistas lésbicas começam também a movimentar-se para conseguir
marcar presença. A Rede de Informação Um Outro Olhar inicia esse processo em
1999 se postando no início das Paradas, quando ainda era possível fazer isso,
carregando faixas relativas à liberdade de expressão sexual. Em 2001, faz a
Parada numa truck, tendo em vista a necessidade de distribuir material, no que
foi imitada por um outro veículo (um trenzinho) de um outro grupo de lésbicas.
De 2001 até hoje (2006), a Rede de Informação Um Outro Olhar saiu nas Paradas
com trios elétricos financiados por órgãos governamentais ou por verbas das
próprias participantes, dividindo a avenida com o grupo AMAM (lésbico) que
também sai tradicionalmente desde a mesma época.
Igualmente antes e depois das Paradas, passam a ocorrer outros eventos
comemorativos do orgulho LGBT nacionais, incluindo atividades para lésbicas.
Entre outras, em 2000, ocorreu um evento comemorativo dos 20 anos de ativismo
lésbico no Brasil e, em 2003, o V SENALE, além da Primeira Caminhada Lésbica.
Neste mesmo ano, Luiza Granado e Neusa Maria de Jesus, da Rede de Informação Um
Outro Olhar e da Associação da Parada do Orgulho GLBT, na época, uniram-se para
tentar formar uma secretaria de lésbicas dentro da Associação, entidade que
sempre se caracterizou por ser fundamentalmente masculina e gaycêntrica. Para
dar destaque à questão lésbica, nos eventos comemorativos da Parada do Orgulho
LGBT daquele ano organizaram um debate específico sobre a questão lésbica
(11/06/2003) e durante o mesmo lançaram o Dia do Orgulho Lésbico, dia 19 de
Agosto, em referência à primeira manifestação lésbica contra o preconceito e a
discriminação ocorrida no Brasil, em São Paulo, em 1983. O dia foi lançado tendo
em vista estabelecer uma referência histórica de luta e orgulho para lésbicas e
que de fato pudesse a vir ser comemorada, tendo em vista inclusive que o outro
dia que se havia pensado nesse sentido nunca havia saído do papel.
2003: O ORGULHO LANÇA A VISIBILIDADE
O lançamento do Dia do Orgulho Lésbico, em 2003, foi amplamente divulgado pela
mídia, mais por uma coincidência do que por causa de uma campanha planejada de
divulgação. Como de praxe, o jornalista Aureliano Biancarelli, então da Folha de
São Paulo, buscou a Rede de Informação Um Outro Olhar para saber o que estávamos
planejando para a Parada do Orgulho e foi informado sobre o lançamento do 19 de
Agosto. Fez uma reportagem sobre o assunto com Luiza Granado e eusa Maria de
Jesus, pauta que foi, como de costume, reproduzida por outros jornalistas e
outros veículos da mídia, dando uma grande divulgação à iniciativa.
NNesse ínterim, como já dito, ocorria o V SENALE em São Paulo, cujas fundadoras
haviam lançado a idéia do dia da visibilidade em 1996, embora nunca tivessem se
dado o trabalho de viabilizá-la. Diante da ameaça de ver um outro dia suplantar
o dia da visibilidade, durante plenária desse evento, elas ressuscitaram o dia
da visibilidade como data de comemoração, passando efetivamente a celebrá-lo a
partir deste ano de 2003.
Até aí morreu Neves, como se diria. O problema é que à parte essa decisão, essas
ativistas iniciaram também uma campanha de difamação e injúrias (crimes
previstos no Código Penal deste país) contra as pessoas que lançaram o Dia do
Orgulho e suas respectivas organizações. O relato que se segue poderia ser
definido como uma ópera bufa, não fosse o quadro muito triste do estado moral
dos movimentos sociais que vem a revelar.
Conjugaram-se para ampliação dessa campanha difamatória interesses de ativistas
de outros movimentos, desafetos históricos das organizações que lançaram o 19 de
Agosto, que se aproveitaram da situação para realizar seus intentos oportunistas
e retaliatórios. De um lado, tivemos os glpetistas (gays e lésbicas petistas)
que tinham problemas com a diretoria da Associação da Parada de então, que havia
expulsado o ex-presidente da entidade, Beto Jesus, sob acusação de improbidade
administrativa, e com a própria Rede de Informação Um Outro Olhar, com quem
tinham conflitos desde a organização do IX Encontro Brasileiro de Gays, Lésbicas
e Travestis (1997), sem falar num conflito de fundo mais antigo que remete à
história primeira do movimento homossexual brasileiro, quando os anarquistas
deixaram o grupo SOMOS em protesto contra a tomada da organização por grupos da
Convergência Socialista. A Um Outro Olhar descende politicamente desse grupo que
deixa o SOMOS. De qualquer forma, não pretendo me estender sobre o papel dos
glpetistas nessa ópera bufa, assunto para outro momento, mesmo porque o governo
Lula, seus mensalinhos e mensalões, cuecas cheias de dinheiro, sanguessugas e
outros bichos peçonhentos falam por mim muito melhor do que eu jamais imaginei
que poderia dizer.
De outro lado, tivemos as feministas homossexuais desempenhando um papel
importante na construção do dia da visibilidade, como hoje ele se celebra, sobre
as quais vale a pena se debruçar um pouco mais. Como vimos no início desse
artigo, o movimento feminista pregou a invisibilidade lésbica em seu meio até
2002 quando, na Conferência Nacional de Mulheres Brasileiras (Brasília,
6-7/06/2002), assumiu finalmente a questão. É preciso lembrar que, mesmo aí, o
apoio que o MF deu à questão lésbica, ainda era indireto, como apoio à causa de
gays, lésbicas e travestis e não como apoio a causa das mulheres lésbicas. Foi
esta que lhes escreve que introduziu na Plataforma Feminista o papel fundamental
das mulheres lésbicas na luta pelos direitos das mulheres em geral, porque as
feministas homossexuais haviam se esquecido desse detalhe.
Voltando um pouco no tempo, lembremos que no início do MF, em nosso país e no
mundo todo aliás, a sociedade machista acusava as feministas de reivindicarem
igualdade para as mulheres porque elas não gostavam de homens, porque eram
sapatões. As feministas se acovardaram diante dessas acusações e sacrificaram a
questão lésbica para se manterem distantes desse estigma. O grau de
invisibilidade a que as lésbicas ficaram sujeitas dentro do MF foi maior ou
menor de acordo com a capacidade destas de aceitarem ou não essa situação. Nos
EUA, onde as lésbicas já tinham alguma articulação até antes da emergência do
feminismo, essa política não vigorou. No Brasil e em outros países da América
Latina, essa política foi hegemônica até o início deste século.
Acontece que a História pregou uma peça nas feministas. A mesma sociedade
machista que as acusava de sapatões por reivindicarem direitos iguais para as
mulheres acabou, 26 anos depois, transformando as lésbicas em fetiche da mídia e
tirando as feministas e o feminismo da pauta das redações. Prova de que não vale
a pena fazer certas barganhas. Principalmente do início do milênio para cá, à
parte toda a evidência trazida pelas Paradas do Orgulho LGBT, começaram a surgir
personagens lésbicas em novelas, seriados, atrizes e cantoras dando selinhos em
amigas, cantoras hétero se fazendo passar por lésbicas, como jogada de
marketing, até chegarmos recentemente à novelinha lésbica que é o seriado
americano The L Word, onde sobram cenas tórridas de sexo entre mulheres em plena
TV. Quem diria, não?
Nessas circunstâncias, depois de 2001, as feministas homossexuais começaram a se
interessar pela organização lésbica que, aos trancos e barrancos, foi de
qualquer forma crescendo paralelamente ao MF. Esse interesse se concretizou
exatamente em 2003, quando do lançamento do Dia do Orgulho Lésbico e da
realização do V SENALE, onde de fato se lançou também o dia da visibilidade
lésbica. A princípio algumas feministas homossexuais ficaram em dúvida sobre o
que fazer diante da existência de desses dias lésbicos, mas depois consideraram
mais oportuno apoiar o dia da visibilidade.
Se fosse só apoiar, contudo, não haveria problema. Mas elas resolveram encampar
a campanha difamatória e injuriosa contra as pessoas que lançaram o Dia do
Orgulho Lésbico, com armações e articulações nada condizentes com os princípios
feministas (o que será isso?) ou de direitos humanos. Os ataques visaram atingir
a credibilidade das pessoas que lançaram o Dia do Orgulho e a validade do mesmo,
inclusive com ameaças de ostracismo político contra aquelas e aqueles que
naturalmente apoiavam o dia.
Então, nós tivemos dois movimentos na construção do dia da visibilidade:
1) primeiro, o da afirmação do dia, através do mito de que ele teria sido
lançado por mais de 100 ativistas lésbicas, em 1996, e conseqüentemente
comemorado desde então e
2) segundo, o do ataque à credibilidade das pessoas que lançaram o Dia do
Orgulho Lésbico e à validade do mesmo. Neste segundo movimento, procurou-se
invalidar o Dia do Orgulho dizendo que ele não tinha sido tirado numa plenária,
pois só uma plenária daria aval a tais comemorações. Esqueceram-se, contudo, que
os símbolos máximos de celebração da comunidade LGBT em todo o mundo,
comemorados inclusive por estas mesmas pessoas, não saíram de nenhuma plenária.
O Dia Internacional do Orgulho Gay, o dia 28 de junho, foi lançado por um grupo
homossexual americano que capitalizou a revolta de Stonewall Inn e a bandeira do
arco-íris foi criada por um artista gay americano e divulgada no meio LGBT
passando a ser adotada internacionalmente.
De fato, as razões para as feministas homossexuais terem se metido nessa
pendenga (pendenga desnecessária, diga-se de passagem) remetem a uma repetição
da História. Como já vimos anteriormente, o Movimento Feminista da década de 80,
após o impacto do aparecimento dos grupos lésbicos em seu meio, absorve
individualmente as ativistas lésbicas de então enquanto esvazia politicamente a
questão lésbica. Quase duas décadas e meia depois, esse mesmo MF volta a
absorver a organização lésbica brasileira, agora como apoiadoras da visibilidade
lésbica (sic).
Na verdade, trata-se de um dos casos mais deslavados de cooptação e
aparelhamento de um movimento por outro de que tenho notícia. Só para citar dois
exemplos mais acintosos dessas ações: na caminhada lésbica de Sampa, em 2005, se
viram mais bandeiras sobre o aborto do que bandeiras com temas lésbicos na
avenida. No último SENALE, em Recife, viu-se a princípio, como propostas de
temas para as mesas do encontro, novamente o aborto e os direitos sexuais e
reprodutivos. Isso sem falar que o evento foi organizado por grupos como o Fórum
de Mulheres de Pernambuco e, como se soube posteriormente, teve, em sua comissão
organizadora, até mulheres heterossexuais, enquanto, ao mesmo tempo, não aceitou
a presença de mulheres transexuais. Por fim, vem se notando também, nos últimos
3 anos, uma inflação repentina de grupos lésbicos, todos, contudo, se
identificando também como feministas.
Aqui, cabe um aparte, antes de encerrar este artigo que já se estende além de
seus propósitos. O Movimento Feminista não é o Movimento Lésbico. Embora o
Movimento Lésbico, em todas as partes do mundo, principalmente na América
Latina, tenha muitas vezes intersectado ou tangenciado o Movimento Feminista,
sua história e suas protagonistas não são as mesmas, o que fica evidente
principalmente quando lembramos da política de despolitização da questão lésbica
que o MF manteve durante décadas. Outrossim, o Movimento Lésbico é composto,
internacionalmente, além de lésbicas que se identificam como feministas, de
lésbicas radicais, separatistas, políticas, de buches e femmes, lésbicas
BDSMistas, lésbicas queer e de uma maioria de lésbicas que não está afinada com
nenhuma tribo política, mas que, a seu modo, sempre foi mais visivelmente
lésbica do que as feministas homossexuais jamais conseguiram ser nem no
movimento que sempre carregaram nas costas.
CONCLUINDO
Como disse no início desse artigo, meu objetivo foi tornar visíveis as
distorções históricas que se seguiram ao real lançamento do dia da visibilidade
lésbica, tendo em vista que essas distorções violam a história da organização
lésbica no Brasil, seus fatos e sua evolução natural.
Resumindo, a principal distorção histórica, que passou a ser repetida
exaustivamente principalmente depois de 2004, é de que o dia da visibilidade
lésbica teria sido tirado por uma plenária de mais de 100 ativistas lésbicas, em
1996, quando em 1996 não havia sequer 6 grupos lésbicos no país inteiro. Outra
distorção, decorrência da primeira, é a de que o dia da visibilidade lésbica
teria sido celebrado desde 1996, ao ser lançado, quando de fato passou a ser
celebrado apenas em 2003 para contrapor-se ao dia do orgulho lésbico.
Tais fatos podem ser tranqüilamente levantados por qualquer pesquisador(a) que
se disponha a rastrear essa história buscando registros dessas supostas mais de
100 ativistas lésbicas e de onde e como foram celebrados os dias da visibilidade
lésbica antes de 2003. Seguramente, encontrará atividades públicas e visíveis de
2003 para cá, intituladas de visibilidade lésbica, mas antes só encontrará
registros da primeira manifestação lésbica contra o preconceito e a
discriminação que foi efetuada em 1983 num bar da capital paulistana chamado
Ferro’s Bar.
Meu segundo objetivo, foi tornar visível a campanha difamatória e injuriosa
armada contra as pessoas e as organizações que lançaram o Dia do Orgulho Lésbico
em 2003, tendo em vista invalidar o dia e afetar a credibilidade de suas
promotoras para, entre outras coisas, por exemplo, impedir que artigos como
este, que denunciam estas distorções, sejam levados em consideração.
Cumpre finalizar lembrando que as razões para essas distorções têm motivações
muito pouco auspiciosas que inclusive colocam em cheque o próprio espírito da
luta de quem as produziu. Primeiro, provam a incapacidade dessas pessoas, que
reivindicam da sociedade o respeito às diferenças, de respeitar as diferenças.
Enquanto a motivação para a celebração do dia da visibilidade foram suas
próprias qualidades intrínsecas, ele nunca saiu do papel. Quando se tratou de
competir com outro dia e de, sobretudo, de tentar suprimir esse outro dia, o dia
da visibilidade encontrou motivação para existir e expandir-se. Triste
combustível esse.
E esse afã supressor parte do mesmo princípio que levou a tantos na história da
humanidade a acreditar no Deus único, no partido único, em tantas outras balelas
únicas, cuja unicidade sempre precisou ser mantida às custas de muitas guerras
morais ou materiais. No caso dessa pendenga dos dias lésbicos, não fosse por
esse afã supressor de inspiração claramente fascista, ambas as datas seriam
comemoradas por umas e outras, mais por umas, menos por outras, mas ambas seriam
celebradas sem traumas por transeuntes dos dois eventos.
No entanto, fica muito difícil para as promotoras do dia da visibilidade lésbica
explicar porque elas não celebram a primeira manifestação de visibilidade
lésbica ocorrida no Brasil em 1983. Fica difícil explicar porque não celebram a
memória da ativista (Rosely Roth) que encarnou – como ninguém – o conceito que
essas pessoas têm de visibilidade lésbica. Melhor apagar todos esses incômodos
questionamentos apagando a lembrança do evento que os origina.
Infelizmente, o afã supressor das promotoras do dia da visibilidade acabou
criando um clima totalmente hostil à convivência entre os eventos, descambando
para um vale-tudo destrutivo onde prevaleceu até agora a máxima maquiavélica de
que os fins justificam os meios e a máxima goebeliana de que uma mentira
repetida mil vezes ganha foros de verdade.
SSabemos todos que há mentiras brancas cuja elucidação não vale a pena, pois as
motivações que as criaram inclusive foram positivas. Há outras mentiras, no
entanto, com as quais não podemos conviver assim como há princípios que não
podemos barganhar. Que se comemore o dia da visibilidade lésbica não é um
problema nem o objeto desse artigo, mas que ele pelo menos se sustente em sua
realidade histórica e não em inverdades que atingem historica e moralmente muito
mais do que a ele mesmo.
Miriam Martinho, 52 anos, é fundadora do Movimento Lésbico no Brasil, tendo
organizado as primeiras entidades lésbicas brasileiras, a saber, Grupo
Lésbico-Feminista (1979-1981), Grupo Ação Lésbica-Feminista (1981-1989) e Rede
de Informação Um Outro Olhar (1989....). Editou também as primeiras publicações
lésbicas do país, como o fanzine ChanacomChana (década de 80) e o boletim e
posterior revista Um Outro Olhar (década de 90 até 2002). Atualmente edita o
site Um Outro Olhar On-Line (www.umoutroolhar.com.br), lançado em junho de 2004.
Fundou igualmente o movimento de saúde lésbica no Brasil, em 1994, realizando a
primeira campanha de prevenção às DST-AIDS para mulheres que se relacionam com
mulheres, em 1995, e editando as primeiras publicações sobre o tema desde essa
época (em 2006 publicou a 4 edição da cartilha Prazer sem Medo sobre saúde
integral para lésbicas e bissexuais). Participou da organização do I EBHO
(1980), organizou dois encontros LGBT nacionais (VII EBLHO/93 e IX EBGLT/97) e
foi sócia-fundadora da Associação Brasileira de Gays, Lésbicas e Travestis (ABGLT-1995).
Participou igualmente de vários encontros internacionais com destaque para a IX
Conferência Internacional do Serviço de Informação Lésbica Internacional-ILIS
(Genebra, Suiça, 28 a 31/03/1986), o I Encontro de Lésbicas-Feministas
Latino-Americanas e do Caribe (Taxco, México, 1987) e a Reunião de Reflexão
Lésbica-Homossexual (Santiago, Chile/ nov. 1992).
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Homossexualidade: um amor que não diz seu nome
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Como garantir direitos na relação com ela
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