
Lingüística Queer: Uma perspectiva pós-identitária para os estudos da linguagem
Rodrigo Borba
Introdução
First there was Sappho (the good old days). Then there was the acceptable
homoerotism of classical Greece, the excesses of Rome. Then, casually to skip
two millennia, there was Oscar Wilde, sodomy, blackmail and imprisonment,
Forster, Sackville-West, Radcliff Hall, inversion, censorship, then pansies,
butch and femme, poofs, queens, fag hags, more censorship and blackmail, and
Orton. Then there was Stone Wall (1969) and we all became gay. There was
feminism, too, and some of us became lesbian feminists and even lesbian
separatists. There was the drag and clones and dykes and politics and gay
Sweatshop. Then there was AIDS, which, through the intense discussion of sexual
practices (as opposed to sexual identities), spawned the Queer movement in
America. Then that supreme manifestation of Thatcherite paranoia, Clause 28,
which provoked the shotgun marriage of lesbian and gay politics in the UK. The
child is Queer, and a problem child it surely is.
(Susan Hayes in Jagose, 1996, p. 75-76).
As últimas décadas testemunharam uma explosão discursiva sobre a sexualidade que
foi transformada em objeto de estudos de diversas áreas, por exemplo,
antropologia, sociologia, psicologia, e constitui-se, dessa maneira, em uma
questão a ser pesquisada, questionada, diagnosticada, normatizada das mais
variadas formas. Essa explosão discursiva nada mais é que o reflexo de mudanças
sociais profundas que têm nos mostrado que a diversidade de significados e
categorias sexuais é instável e multifacetada. Gays, lésbicas, travestis,
bichas-boy, transexuais, intersexuais, crossdressers, bissexuais,
heterossexuais, assexuados, ursos, barbies, butches, femmes, fairy queens, butch
queens, transgêneros2. Todos, em maior ou menor grau, constituem uma preocupação
para as ciências sociais que, no afã de caracterizá-los, vêem-se em um campo
onde as delimitações não são claras e as fronteiras são freqüentemente
ultrapassadas e/ou sobrepostas, o que acaba por produzir interpretações
limitadas (e limitadoras). As tentativas de caracterizar as sexualidades
polimorfas (Foucault, 2003) acabam por nos fornecer explicações baseadas em
categorias inertes que constituem o binarismo de gênero que organiza as
sociedades ocidentais, i.e podemos ser homens ou mulheres heterossexuais, quem
dessa dicotomia escapa é tido como desviante ou é a partir da dicotomia
descrito.
No entanto, com o advento da teoria queer, as identidades não-normativas têm
sido discutidas sob um novo e libertador prisma. Pesquisadores/as de diversas
áreas, no mundo anglo-saxão e mais recentemente no Brasil, vêm questionando as
perspectivas tradicionais que têm norteado as investigações sobre sexualidade
nas ciências humanas (por exemplo, Preciado, 2000; Louro 2001; Foucault, 2003;
Butler, 2003a; Parker, 2002; Uziel et al., 2004; Bento, 2006). Esses
questionamentos, em última análise, referem-se às limitações impostas por
categorias sexuais estanques e hegemônicas, i.e. homem e mulher, que castram as
potencialidades identitárias de alguns indivíduos que dessas categorias não
participam. Várias áreas já aderiram a tal perspectiva, pois ela tem se mostrado
eficiente para a investigação de identidades não-normativas3. Uma dessas áreas é
a lingüística que, no contexto norte-americano, desde a segunda metade dos anos
1990, traz novas vozes para a investigação: drag queens (Barrett, 1998),
transexuais (Livia, 1997), gays (Leap, 1996); lésbicas (Queen, 1997)...
Com o presente texto pretendo trazer à baila uma discussão sobre uma área de
estudos da linguagem que vem seguindo os preceitos da teoria queer na tentativa
de investigar as ligações entre linguagem e sexualidade: a Lingüística Queer (LQ,
doravante). Para tanto, acredito que seja necessário esmiuçar os principais
construtos teóricos, analíticos e metodológicos da teoria em questão para, a
seguir, ligá-los aos estudos lingüísticos. Na seção seguinte, discuto, em linhas
gerais, o que caracteriza a teoria queer.
Teoria queer
Para tentar entender o que vem a ser a teoria queer, é mister que esclareçamos o
significado do léxico inglês que compõe o nome da área. Queer pode ser traduzido
por esquisito, estranho, raro, ridículo, excêntrico. Contudo, o termo ficou mais
conhecido no mundo de língua inglesa como uma forma pejorativa de se referir a
mulheres e homens homossexuais. Um insulto homofóbico que a partir do final da
década de 1980 foi apropriado pelos grupos que pretendia menosprezar e
resignificado em uma ação política que afirmava We’re queer, we’re here, get
used to it!. Na onda de afirmação do grupo, teóricos/os gays e lésbicas também
se apropriam do termo para referir-se ao que se costumava denominar Estudos Gays
e Lésbicos. Com efeito, o termo queer passa a ter dois significados distintos,
mas interligados: 1) refere-se aos grupos de gays, lésbicas e transgêneros de
modo abrangente; 2) refere-se à área de estudos sobre esses grupos.
No entanto, com a publicação da obra da grande dame da teoria queer, Judith
Butler, Gender Trouble: Feminism and the subversion of identity (1990), o
significado do termo queer é expandido e novamente resignificado. Como
brilhantemente nos explica Louro (2001), “queer significa colocar-se contra a
normalização – venha ela de onde vier [...]. Queer representa claramente a
diferença que não quer ser assimilada ou tolerada e, portanto, sua forma de ação
é muito mais transgressiva e perturbadora” (p. 546). É importante notar que
adotar uma perspectiva queer é, acima de tudo, ter uma visão crítica dos
discursos sobre sexualidade que normatizam uns e marginalizam outros. O gênero é
tomado como efeito de uma sofisticada maquinaria discursiva mantida por
instituições como o direito, a medicina, a família, a escola, e a língua que
produzem corpos-machos e corpos-fêmeas, obscurecendo outras possibilidades de
estruturação das práticas generificadas e sexuais. Teóricos e teóricas queer têm
como alvo direto de investigação e crítica a construção da heteronormatividade,
ou seja, as regras que normatizam a heterossexualidade como modo “correto” de
estruturar o desejo. Destarte, um dos principais construtos
teórico-metodológicos dessa teoria é a desnaturalização do que é considerado
normal. A heteronormatividade, dizem os/as teóricos/as queer, é uma construção
discursiva (cf. Katz, 1996) com viés político que visa à marginalização dos que
com ela não se identificam. Essa heteronormatividade é constituída por regras,
produzidas nas sociedades, que controlam o sexo dos indivíduos e que, para isso,
precisam ser constantemente repetidas e reiteradas para dar o efeito de
substância, de natural. Esse efeito é performativo, isto é, tem o poder de
produzir aquilo que nomeia e, assim, repete e reitera as normas de gênero. Como
observa Butler (2003b), “as normas de gênero operam ao ordenar a corporificação
de certos ideais de feminilidade e masculinidade, ideais que são quase sempre
relacionados à idealização do vínculo heterossexual” (p. 157).
Outro construto essencial para a teoria queer, rapidamente mencionado acima, e
que é basilar para a LQ, é a noção de performatividade. Idealizada pelo filósofo
da Linguagem J. L. Austin (1976), a teoria dos atos de fala indica que ao falar
não só descrevemos o mundo, mas sobre ele agimos, fazemos coisas. Enunciados
como “eu vos declaro marido e mulher”, quando proferidos por indivíduos
autorizados, não caracterizam a realidade, mas a (re-)criam. Dessa forma,
enunciados, não são meramente descritivos; eles são, nessa perspectiva,
prescritivos. Utilizando insights dessa teoria para demonstrar como os gêneros
sociais (e, de modo geral, as identidades) são produtos das performances locais
dos indivíduos, Butler (2003a) afirma que
[o] gênero é a estilização repetida do corpo, um conjunto de atos repetidos no
interior de uma estrutura regulatória altamente rígida, a qual se cristaliza no
tempo para produzir a aparência de uma substância, de uma classe natural de ser
(p. 59).
É, assim, a partir da repetição constante de certos atos impingidos no corpo que
criamos nossas identidades. Esses atos são, para Butler, performativos, pois “a
essência ou a identidade que pretendem expressar são fabricações manufaturadas e
sustentadas por signos corpóreos e outros meios discursivos” (Butler, 2003a, p.
194). As performances de gênero e sexualidade são reguladas por normas que
estabelecem como homens e mulheres devem agir – o que Butler identifica como
heteronormatividade. Essas regras limitam as potencialidades dos gêneros
circunscrevendo-os a um binarismo castrador. Como mencionado acima, podemos ser
homens ou mulheres (heterossexuais) e aqueles/as que rompem com as
possibilidades de classificação, através de suas práticas, são tornados seres
abjetos, culturalmente ininteligíveis e/ou desprezados, corpos que não importam
(Butler, 1999). Porém, como sugere Louro (2001), esses sujeitos abjetos,
exatamente por subverterem as normas de gênero “são socialmente indispensáveis,
já que fornecem o limite e a fronteira, isto é, fornecem o ‘exterior’ para os
corpos que ‘materializam a norma’, os corpos que efetivamente importam” (p. 549)
Com as críticas à heteronormatividade, teóricos e teóricas queer sugerem que é
fundamental uma mudança efetiva que desestabilize e destrua a lógica binária de
gênero e seus efeitos controladores: a exclusão, a hierarquia, a classificação,
a dominação, a segregação. Para empreender tal mudança, a teoria queer tem como
construto metodológico a desconstrução e a contestação como métodos de análise e
crítica sócio-cultural. A partir desses métodos, quer-se minar todo e qualquer
binarismo que implique hierarquia e exclusão, por exemplo, hetero/homo,
branco/negro, homem/mulher. Afirma-se, assim, que o segundo termo da dicotomia
não é ao primeiro submisso e dependente, mas, sim, livre para traçar
significados próprios não necessariamente relacionados à primeira parte do par.
Esses (novos) significados só podem ser manufaturados em nossas performances
diárias que, em vez de repetir normas, têm a possibilidade de não segui-las
(obviamente sob algum risco social) e, dessa forma, desafiar sua hegemonia.
Em linhas muito gerais, os princípios da teoria queer foram acima descritos.
Centrei meus esforços nos conceitos mais relevantes que irão informar uma
abordagem queer nos estudos da linguagem. Resumidamente, a teoria queer nasceu
dos esforços de alguns/mas estudiosos/as e grupos sociais que se viam
desprivilegiados com as classificações de gênero e sexuais disponíveis na
sociedade. Com a introdução do termo queer, classificações outras são possíveis
e as identidades, consideradas como performances, adquirem um status, discursivo
e local, com potencialidades de submeterem-se às normas heteronormativas de
gênero e sexualidade ou de subvertê-las através de repetição (ou não) dessas
normas. Vimos também que teoria queer opera por desestabilização do que é tido
como normal e, assim, traz novas vozes para a investigação científica.
Lingüística Queer: linguagem e sexualidade
Um dos pontos mais importantes para a teoria queer é demonstrar as maneiras que
pressuposições heteronormativas relacionadas a categorias identitárias
pré-definidas são parte de um discurso social de dominação. Como indica Rusty
Barrett (2002), “o significante queer pretende não ter um significado no
mundo-real; queer refere-se a um conjunto imaginado e não definido de práticas
sexuais (e indivíduos associados a essas práticas) que escapa das pressuposições
heteronormativas dos discursos sociais dominantes” (p. 27). Assim, não se pode
dizer que a LQ seja o estudo de uma categoria pré-definida e bem delimitada,
como gays e lésbicas. A empreitada é muito mais pretensiosa. Quer-se, ao
cravejar os estudos lingüísticos com ideais queer, criar inteligibilidades sobre
como construímos, negociamos e estruturamos nossas identidades dentro de
sociedades heteronormativas que impõem determinadas maneiras de ser
apriorioristicamente.
Nessa perspectiva, práticas discursivas que envolvem indivíduos (homoeróticos ou
não) são entendidas como parte de uma estrutura de dominação que limita as ações
discursivas de maneiras variadas. Já que somos construídos através do que
falamos (Cameron, 2001), ao falar utilizamos discursos que temos disponíveis, e
esses discursos podem ecoar (repetir e reiterar) as normas da
heteronormatividade, nos impelindo, assim, a posições de sujeitos com as quais
não necessariamente nos identificamos.
A LQ foi inaugurada com a publicação de Queerly Phrased: Language, Gender, and
Sexuality (Livia e Hall, 1997), uma coletânea de artigos que versam sobre a
construção discursiva de identidades sexuais a partir de uma perspectiva
performativa. Livia e Hall, na introdução de sua obra, argumentam que o conceito
de performatividade é essencial no campo dos estudos da linguagem. Segundo as
autoras, embora Butler tenha derivado o conceito de teorias lingüísticas, ela
não está interessada em analisar como a sexualidade emerge em contextos
sociolingüísticos. Na tentativa de preencher essa lacuna, a LQ volta suas
atenções para teorias sobre ideologias (Gall e Irvine, 1995), práticas (Bourdieu,
1977, 1985) e identidades que podem ser utilizadas para ancorar o estudo da
produção discursiva da sexualidade nas performances locais de indivíduos. Essas
teorias indicam que a identidade não é necessariamente inerente, individual e
intencional. Como observam Bucholtz e Hall (2004),
a identidade não pode ser inerente se ela um resultado emergente (em vez de uma
fonte pré-existente) das ações sociais; ela não pode ser individual se é
socialmente negociada; e não pode ser totalmente intencional já que é produzida
por práticas e ideologias que excedem nossa consciência (p. 493).
Dessa forma, as identidades sexuais são abordadas, na LQ, como produtos/efeitos
de práticas socioculturais que somente podem ser verificadas através de estudos
etnográficos que analisem, através de uma descrição densa (Geertz, 1989), as
performances locais dos indivíduos. Essas performances incluem tanto categorias
de nível macro como posições culturais que emergem etnograficamente. É na
interseção entre o micro e o macro que a prática lingüística deve ser analisada
para investigar as limitações heteronormativas (e as possíveis subversões dessas
limitações). Portanto, a LQ requere que examinemos como falantes administram
ideologias locais sobre as posições identitárias disponíveis na produção de suas
identidades sexuais. O objetivo principal da LQ é investigar como indivíduos
considerados não-normativos negociam suas identidades dentro das limitações
discursivas da heteronormatividade ao repeti-la ou subvertê-la através de suas
performances lingüísticas. Bucholtz e Hall (2004) asseveram que “a LQ traz para
a análise lingüísticas a regulação da sexualidade pela heterossexualidade
hegemônica e as maneiras nas quais sexualidades não-normativas são negociadas em
relação a essas estruturas regulatórias” (p. 471), segunda as autoras “uma das
características mais instigantes da LQ, de uma visão teórica, é que ela nos
permite falar sobre ideologias, práticas e identidades sexuais como fenômenos
interrelacionados sem perde de vista as relações de poder” (Bucholtz e Hall,
2004, p. 471). Posso citar como exemplos de pesquisas nessa perspectiva os
estudos de Barret (1998) sobre drag queens afro-americanas, Hall (1997) sobre as
hijras indianas, Livia (1997) sobre a construção discursiva de uma transexual
francesa, Queen (1997) sobre a identidade lésbica, Moita Lopes (2006a) sobre as
performances de masculinidade hegemônica em uma escola pública brasileira, Moita
Lopes (2006b) sobre a construção da homossexualidade em um jornal popular
carioca e Borba e Ostermann (2007) sobre a construção discursiva da identidade
de travestis que se prostituem4. Esses estudos nos mostram que a LQ interessa-se
pela investigação de toda a extensão de identidades, ideologias e práticas
sexualizadas que emergem de contextos socioculturais específicos. Dessa maneira,
a LQ lança seu foco de atenção sobre o comportamento humano e pode nos dar a
oportunidade de compreender como as sexualidades são estruturadas, construídas,
controladas, negociadas dentro de organizações heteronormativas.
Lingüístas queer ao investigar a sexualidade a consideram como “um conjunto de
sistemas de ideologias, práticas e identidades mutuamente constituídas que dão
significados sóciopolíticos aos corpos como lugares erotizados e/ou
reprodutivos” (Bucholtz e Hall, 2004, p. 470). Esse abrangente conceito indica
que as sexualidades são produzidas em nossos corpos através de práticas
limitadas por ideologias locais. A teoria queer, ao afirmar que as identidades
não são pré-formadas, mas sim performadas (Pennycook 2004) em práticas
contextualizadas, mostra-se uma excelente ferramenta para o estudo das
sexualidades. Porém, não é o único. Como sugerem Bucholtz e Hall (2004), a LQ
também bebe de fontes teórico-metodológicas provenientes da teoria feminista, da
sociolingüística, da antropologia lingüística e da análise do discurso. As
autoras indicam que a teoria feminista contextualiza tanto as sexualidades queer
quanto as sexualidade hegemônicas com relação a outros fenômenos socioculturais
como gênero, raça e classe social: “a combinação dessas abordagens faz surgir
uma visão ampla e criticamente nuançada da sexualidade” (Bucholtz e Hall, 2004,
p. 490). Portanto, as investigações lingüísticas com um viés queer devem,
durante a etnografia, salientar os atravessamentos identitários que constituem
as sexualidades localmente construídas. Assim, por exemplo, não se é somente uma
lésbica; mas sim uma lésbica, feminista, negra, de classe popular, secretária,
com práticas sexuais sadistas... Dessa forma, ao analisarmos as práticas
discursivas nas quais os indivíduos engajam-se podemos verificar a construção de
um imenso leque identitário que, através de performances corporais e
lingüísticas, escapam as dicotomias homem/mulher, hetero/homo. Conquanto, é
crucial observar que embora a primeira vista essas identidades pareçam escapar
do binarismo, elas podem ser por ele moldadas. Um dos insights da teoria queer
sobre a dominação heterossexual das identidades é que, mesmo identidades queer
podem derivar seus sentidos de estruturas heteronormativas (ver Bucholtz e Hall
2004; Hall, 2003; Pelúcio, 2005 para interessantes discussões sobre o assunto).
Como referido acima, a LQ também busca na sociolingüística, na antropologia
lingüística e na análise do discurso ferramentas para suas investigações.
Resumidamente falando, todas essas disciplinas enfatizam que a linguagem tem um
papel mediador entre estruturas de poder e atividades humanas (Bucholtz e Hall,
2003). Bucholtz e Hall (2004, p. 492) indicam que a linguagem, nas perspectivas
supracitadas, tem três aspectos importantes para a LQ:
1) ela é o conduto através do qual ideologias circulam
2) é o palco sobre o qual as práticas sociais são produzidas
3) é o meio pelo qual as identidades são construídas
Tendo isso em perspectiva, as autoras afirmam que qualquer análise lingüística é
insatisfatória se não incluir as relações entre sistemas de poder e as maneiras
que eles são negociados por indivíduos em contextos locais. Destarte, pode-se
falar da performatividade como um fenômeno local cravejado de ideologias,
identidades e práticas sociais mais abrangentes. A investigação dessas
performances pode nos demonstrar como a multiplicidade de identidades sexuais é
construída e negociada vis a vis ideologias sobre a sexualidade presentes nas
práticas através das quais essas ideologias são expressas. Pode-se, assim,
construir inteligibilidades sobre (1) as imposições ideológicas impostas a
indivíduos em contextos locais e (2) as relações de fluidez mútua entre
linguagem e sexualidades.
Considerações finais
Queerificar os estudos lingüísticos significa produzir uma visão mais nuançada e
multifacetada de como queer – gays, lésbicas, travestis, transexuais,
heterossexuais e todos/as aqueles/as que, em suas performances que, de alguma
forma, desestabilizam dicotomias identitárias – utilizam a linguagem para
construir-se dentro das limitações heteronormativas dos discursos que impõem
posições de sujeito naturalizadas. Essa queerificação pode ter efeitos decisivos
no escopo do campo dos estudos lingüísticos que têm por muito tempo reduzido
seus sujeitos de pesquisa a indivíduos brancos, de classe média, heterossexuais
e ocidentais como se todos/as falantes assim o fossem e como se a linguagem
utilizada por esses indivíduos fosse a única que merecesse ser investigada. Com
o estudo de como queer utilizam a linguagem, a lingüística pode aumentar a
compreensão do poder da linguagem como um construto mediador e constitutivo de
nossas identidades (Moita Lopes, 2002).
Além disso, outra contribuição relevante que a LQ traz é a desessencialização da
relação entre linguagem e identidades sociais. A linguagem deve ser considerada
como um ato de identidade. Ou seja, não falamos A, B ou C por que somos X, Y, Z;
mas nos constituímos como X, Y ou Z ao falar A, B ou C. A queerificação da
lingüística é par excellence uma ação epistemológica pós-estruturalista que
desconstrói visões monolíticas das ligações entre identidade e uso de língua se
mostrando como uma bela esperança para aqueles/as que (ainda) estão à margem da
sociedade e da academia.
NOTAS
1 Graduado em Letras/Inglês pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos,UNISINOS.
Mestrando do Programa Interdisciplinar de Lingüística Aplicada da Universidade
Federal do Rio de Janeiro, UFRJ.
2 Alguns dos termos inclusos nessa lista parcial de identidades sexuais podem
não ser inteligíveis aos/às leitores/as brasileiros/as. A grande maioria
palavras em inglês se refere a categorias verificadas etnograficamente por
alguns estudiosos (Dozier, 2005; Schrock et al., 2005; Valentine 2002) e que são
contextualmente construídas. Uma lista de termos em português é difícil de
elaborar por falta de estudos etnográficos concisos sobre as identidades
não-normativas. Os estudos brasileiros tendem a investigar as homossexualidades
por um cânon bastante estreito, focalizando principalmente gays, lésbicas e
travestis. Essas não são as únicas identidades que compõem o escopo das
sexualidades brasileiras e, portanto, faz-se necessário que estudos futuros
lancem esforços na descrição de identidades produzidas localmente em grupos
socioculturais específicos para aumentar nossa compreensão sobre a fragmentação
das identidades sexuais disponíveis.
3 Identidades não-normativas são aquelas construídas por indivíduos que, em suas
performances, não reiteram completamente os ideais heteronormativos impostos em
sociedades ocidentais industrializadas.
4 Embora nem todos os estudos referidos explicitamente filiam-se à lingüística queer, os cito, pois muitos de seus preceitos teórico-metodológicos são a ela
relacionados.
Fonte: http://www.entrelinhas.unisinos.br/index.php?e=5&s=9&a=25
Você está em:
Palavras que calam
SIM
Lista de e-mail dos senadores/2007
Relações Homoafetivas
A União Homoafetiva no Direito Brasileiro Contemporâneo
Pra que orgulho?
A vivência preconceituosa entre homossexuais
Mães lésbicas
Um é Pouco!
Então por que os direitos são diferente?
Declaração Universal dos Direitos Humanos
11 Anos de uma história mal contada
Homossexualidade: um amor que não diz seu nome
Stonewall
Butch e Femme
Deus e a Homossexualidade
Um é pouco. Dois é bom
Como garantir direitos na relação com ela
Cartilha dos Direitos Sexuais
Corpos e Próteses: dos Limites Discursivos do Dimorfismo
![]()
Bom saber:
Jogando prosa fora:
Artigos(ou algo parecido)
Espia:
Bom de se ir:
Gia
Menina Lua
Ro
Luluzinha
Ela
Van
Lu
Black Bird
Sou vida
Cheia de manha
Elas e Elas
Andarilha Estelar
Essenziali Femminile
Poeira Estelar
(*)StArLeTh(L)
Renata
Mulheres de cueca
Cacau
Lilian Werneck
Lebosfera
Priscila
Apaixonadas
Movimento D'ELLAS
Apaixonadas
Mo.le.ca
Um outro Olhar
Grupo Lamce
Além
Comuniles
Coturno de Vênus
Planeta Les
Coisa de Mulher
Rede Social Lésbica Erótica
Mapa da Diversidade Sexual
Athos GLS
Mix Brasil
GLS Planet
![]()
Site Criado e desenvolvido por:
![]()