SIM
As três letras acima dividem o Brasil e
impedem que 6 milhões de gays tenham acesso aos mesmos direitos que o
restante da população. Se todos somos iguais perante a lei, está certo
alguns brasileiros terem mais benefícios que outros?
Sérgio Gwercman

Até 1977, casar no Brasil era aventura para sempre. Pode parecer
estranho para quem não viveu aqueles tempos, e mais estranho ainda
para quem os viveu, mas naquela época a lei proibia o divórcio. E,
quando finalmente o governo autorizou a separação de casais,
institui que cada cidadão poderia faze-lo uma única vez na vida. Na
sessão que aprovou o divórcio, um parlamentar disse que o país
criava uma "fábrica de menores abandonadas". O deputado Nélson
Carneiro, espécie de paladino da causa, batalhou duas décadas para
emplacar seu projeto de legalização. Nesse tempo, foi tratado como
qualquer coisa entre o herói libertário e o anticristo que
enfrentava católicos e desprezava crianças.
Hoje, para muita gente essa passagem parece um episódio folclórico
dos tempos em que o Brasil era um país tacanho e conservador. Mas há
quase três décadas a legalização do divórcio despertava emoções e
debates tão fortes quanto a idéia de permitir, em 2004, que duas
pessoas do mesmo sexo tenham permissão para se casar. Para os
críticos, trata-se de uma ameaça à família, à sociedade e às
crianças que serão educadas por esses casais. Para os defensores,
estamos diante de uma questão de escolha individual e direitos
iguais. Legalizar o casamento gay significa que o governo brasileiro
está reconhecendo que naquele ato não existe nada de errado. Pelo
contrário: que o casal está plenamente apto a formar uma família -
provavelmente a mais fundamental de todas as instituições da
sociedade, onde futuros cidadãos recebem carinho, aprendem valores
morais e noções de certo e errado.
Desde 1996, o Congresso tem entre sues projetos uma proposta que
autoriza a parceria civil entre homossexuais no Brasil. Por parceria
civil, entenda algo muito próximo de casamento. Se fosse aprovada no
ano em que foi proposta, o Brasil estaria na vanguarda dos direito
homossexuais, hoje não é mais assim: desde 2001, na Holanda, os
direitos de casamento valem para todos os cidadãos - as palavras
homo e heterossexual nem são citadas pela lei. É impossível saber
quantos casamentos gays acontecem no país: os registros não dão
conta se os noivos eram do mesmo sexo,k assim como desconhecem se
eram negros, judeus ou canhotos. Na Bélgica, Canadá e no estado
americano de Massachusetts, a situação é semelhante. França,
escandinavos e Buenos Aires, entre outros, já autorizam a união
civil entre gays.
Dói lado oposto está a maioria dos países árabes, que condenam à
prisão quem transar com alguém do mesmo sexo. Ou o Zimbábue, cujo
ditador Robert Mugabe enxerga gays como "subanimais" e "sem
direitos". Na última década, o planeta lentamente começou a se
polarizar entre nações que garantem direitos aos gays e as que não
os reconhecem como cidadãos. É nesse quadro que o Brasil vai ter de
se posicionar.
Procurar um lugar para a minoria homossexual dentro da sociedade não
é um problema recente. Aristófanes, um dos discursantes no Sumposium,
de Platão, contava que a raça humana foi criada com três gêneros: os
duplamente macho, os duplamente fêmea e os que eram macho e fêmea ao
mesmo tempo. Cada um deles com quatro pernas e quatro braços. Como
toda boa mitologia, em algum momento as criaturas erraram e foram
punidas pelos deuses, que as separam em duas partes. Desde então,
estamos todos procurando nossa outra metade. Com uns 3 mil anos de
antecedência, Aristófanes concebeu uma parábola para o amor nos
tempos modernos, contemplando o relacionamento não só entre homens e
mulheres,mas também entre homens e homens, e mulheres e mulheres,
mais ainda, ofereceu uma explicação idílica e romântica para o
desejo de nos aventurarmos na mais radical das declarações de amor:
viver junto, e de preferência para sempre, com outra pessoa.
A LEI
Se você entende casamento como a união de dois pombinhos que dormem
na mesma cama todas as noites, se amam, dividem as contas, são
fiéis, moram sob o mesmo teto, brigam com certe regularidade para
depois fazerem as pazes, então, casamento gay já existe.
Homossexuais têm se relacionamentos estáveis idênticos aos dos
heterossexuais. E continuarão tendo, queira sua vontade ou não.
Portanto, o assunto desta reportagem não é discutir se duas pessoas
do mesmo sexo têm o direito de viver juntas, mas se o Estado deve
reconhecer tal relacionamento da mesma maneira como faz com um homem
e uma mulher. Mesmo porque, ao pé da letra, não há nada na
Constituição brasileira que proíba a união gay.
O artigo 226, quem define regras para o casamento, em nenhum momento
diz tratar-se de uma exclusividade para os sexos opostos. A maioria
dos juristas enxerga no silêncio da principal legislação brasileira
uma proibição à combinação homem com homem, mulher com mulher e uma
certidão de casamento. Trata-se de uma questão de interpretação: foi
aproveitando uma brecha parecida que ativistas holandeses
conseguiram fazer a Suprema Corte do país afirmar que a união entre
gays era legal - e assim celebrou-se o primeiro casamento gay
plenamente reconhecido dos tempos modernos, dia 9 de abril de 2001,
em Amsterdã.
No Brasil, o Congresso ainda tenta aprovar a lei autorizando que
pessoas do mesmo sexo tenham acesso ao dispositivo legal batizado de
parceria civil, que garante seu reconhecimento como casal. Não é um
casamento, porque não dá aos parceiros as mesmas garantias que os
casados têm, como permissão para adotar crianças. Não é também uma
equiparação plena de direitos porque, se fosse, o casamento
homossexual se chamaria casamento, e não parceria civil. Passeando
pela pauta há oito anos, a proposta sequer entrou em votação - se
entrasse, provavelmente receberia o "não" dos congressistas. "É um
projeto emblemático dos direitos homossexuais, e, por isso enfrenta
resistência maior. Vai ser difícil aprova-lo", diz a senadora Ideli
Salvatti, presidente da Frente Parlamentar pela Livre Expressão
Sexual, formada por deputados e senadores. "Nenhum legislador vai
desagradar seu eleitorado. O caminho para a aprovação do casamento é
do Judiciário, que não pode manter uma desigualdade", afirma a
desembargadora Maria Berenice Dias, especialista em direitos
homossexuais.
Se for autorizada, a parceria civil representará uma conquista gay
sem precedentes no Brasil. Ainda assim, entrará em vigor já obsoleta
- é considerada demasiadamente preocupada com bens e patrimônio. Na
França, que tem a legislação familiar considerada por especialistas
como a mais liberal no mundo, o Pacto Civil de Solidariedade, como é
conhecido, estipula que duas pessoas maiores de idade - de qualquer
sexo - podem constituir família e regular por completo o regime de
direitos e deveres entre elas. "Tudo que diz respeito ao casal,
inclusive a fidelidade sexual, pode ser definido nesse documento",
afirma o juiz federal Roger Raupp Rios, autor de um doutorado sobre
discriminação. "Até o início do século 20 existia um conceito rígido
de família: homem, mulher e criança. Hoje não é mais assim. Pessoas
vivem juntas, e a lei precisa estar aberta para novas formas de
casamento."
Mesmo sem amparo legal, homossexuais vêm conseguindo na Justiça a
equiparação de seus relacionamentos com os de heterossexuais. E não
é raro terem benefícios idênticos ao casamento - o caso da esposa de
Cássia Eller, que conseguiu guarda do filho da parceira morta, é um
exemplo.
Mas vitórias na Justiça não podem ser confundidas com direitos iguais. É impossível
dizer que alguém obrigado a contratar um advogado e
enfrentar os tribunais para ter acesso a uma herança, por exemplo,
tenha os mesmos direitos de quem recebe o dinheiro automaticamente.
Um exemplo: os Supremos Tribunais de Justiça e Federal devem decidir
em breve se um homem que viveu 47 anos com um parceiro
recém-falecido tem direito a herdar seus bens. A pedido da revista Superinteressante, especialistas prepararam uma lista com diferenças
entre um casal heterossexual e um casal gay que mantenha relação
estável. Chegaram a pelo menos 37 direitos que o país nega para
aqueles que têm duas escovas de dente azuis - ou duas rosas - no
banheiro de casa. O casamento certamente encabeça a lista das
desigualdades. Mas há outras. Em caso de emergência, um gay não pode
autorizar que seu marido ou esposa seja submetido a uma cirurgia de
risco. Aos casais homossexuais também é vetado fazer declaração do
Imposto de Renda em conjunto, e deduzir dela gastos com dependentes,
ou seja, no Brasil um casal gay paga, em tese, mais impostos que seu
equivalente heterossexual. Pior: recebe menos benefícios, pois,
entre outros, eles raramente conseguem incluir o parceiro no plano
de saúde. Todas essas desigualdades poderiam ser eliminadas com a
legalização do casamento.
Se o Estado faz diferença entre pessoas por causa da orientação
sexual, como devemos entender o princípio, expresso na Declaração
Universal dos Direitos Humanos, de que todos somos iguais perante a
lei? "A Constituição é soberana para aplicar o princípio da
igualdade da maneira que quiser", diz o jurista Ives Gandra Martins,
da Universidade Mackenzie. "Existem inúmeras exceções ao princípio
da igualdade. A proibição do casamento entre gays é só um exemplo.
Da mesma maneira, existem atividades econômicas que pagam mais
impostos que outras."
No final das contas, o debate sobre casamento gay é um confronto
entre cidadania e valores morais. De um lado, pessoas que pagam
impostos e, portanto, exigem ter os mesmos direitos que o restante
da população. Do outro, aqueles para quem esse direito é uma afronta
à sociedade em que preferem viver. Aqui, e em boa parte do mundo, a
vontade prevalece sobre os direitos da minoria. E isso é perigoso.
"Tirar o direito da minoria é tirar o direito de todos. Ou a lei
vale para todos ou ele não vale nada", diz o filósofo Roberto
Romano, professor de Ética e Política da Unicamp.
A MORAL
Ao se deparar com esse tipo de reflexão, grande parte das pessoas
alega valores morais para se posicionar contra o casamento gay. Em
fevereiro, quando propôs um remendo na Constituição americana
proibindo que homossexuais casassem, o presidente George W. Bush
disse que agia para proteger a "instituição mais fundamental da
civilização". O comentarista Charles Krauthammer escreveu na revista
Time que a maioria dos americanos considerava gays "moral e
psicologicamente repugnantes e não merecedores de aprovação social".
Nos Estados Unidos, a concordância com o casamento gay oscila pouco
abaixo dos 50%. Na União Européia chega a 57%, mas fica abaixo da
maioria em países como Itália e Reino Unido. Na ausência de
pesquisas específicas no Brasil, outros levantamentos de opinião
tornam difícil acreditar que sejamos favoráveis ao reconhecimento da
parceria entre pessoas do mesmo sexo. Em 1998, 60% dos entrevistados
afirmaram ao Ibope que não contratariam um homossexual. No início
deste ano, uma pesquisa da Unesco mostrou que 25% dos estudantes não
gostariam de ter um colega de sala homossexual.
Para entender quais são os valores morais que fundamentam tal
rejeição, é preciso olhar para a mais comum de duas origens: a
religião. Antes disso, é importante lembrar que nenhum movimento em
defesa do casamento gay pele autorização para o matrimônio
religioso. Nessa área, cada doutrina é livre para estabelecer as
regras que bem entender. Luta-se apenas pela autorização do
casamento civil, aquele reconhecido pelo Estado e quem, por sermos
um país laico, deve passar ao largo das convicções religiosas da
população.
Todas as grandes religiões monogâmicas rejeitam o sexo homossexual.
Islamismo, judaísmo e cristianismo consideram-no "antinatural". No
Levítico, a Bíblia afirma que "se um homem dormir com outro homem
como se fosse uma mulher, ambos cometeram uma coisa abominável.
Serão punidos de morte...". para incrementar a rejeição ao tema, as
igrejas ainda consideram que o casamento é uma união de amor entre
homens e mulheres, para toda vida e com o objetivo de procriar e
educar as crianças. Gays, portanto, são incapazes de cumprir
inteiramente a missão do casamento. "Em 2 mil anos de história, a
Igreja Católica tornou-se uma perita em humanidade. E entendemos
como complicada a entrega total entre dois indivíduos do mesmo sexo.
A pessoa do homossexual pode ser feliz? Achamos difícil", diz dom
José Benedito Simão, doutor em moral e bispo-auxiliar da
Arquidiocese de São Paulo.
Se não há dúvidas sobre a condenação bíblica à homossexualidade, os
objetivos do matrimônio parecem ser aliviados pelos religiosos em
outras situações. Nenhuma igreja proíbe o casamento de pessoas
estéreis, que sabidamente não podem procriar. As escrituras também
falam sobe escravos e penas de morte, e nem mesmo os mais devotos
seguem à risca esses mandamentos. "A Bíblia precisa ser
constantemente reinterpretada. É uma questão de evolução. O Antigo
Testamento precisa ser contextualizado a um povo antigo e sua
cultura", afirma dom José.
Por que, então, se abrandaram as rejeições para alguns tabus e não
para outros? A resposta está fora da Bíblia, afirma o sociólogo da
religião, Antonio Flávio Pierucci, da USP. Apesar de justificada em
valores religiosos, a condenação à homossexualidade é fundamentada
num conceito chamado de tradicionalismo pelos acadêmicos. Em geral,
temos dificuldade para lidar com questões cujas respostas v/ao de
encontro ao que aprendemos como correto. E não há dúvida que
enxergar os homossexuais como iguais é uma novidade radical na
realidade dos heterossexuais. "Desde que o mundo é mundo, casamento
é entre homem e mulher", diz Antonio. Gays, então, teriam rompido um
acordo histórico - homens dormem com mulheres e vice-versa.
O problema é que, segundo a ciência, somo incapazes de escolher e
conduzir nossa orientação sexual,. Como diz uma piada comum entre
gays, homossexualidade não é escolha, mas falta de escolha.
Pesquisas sobre o tema apontam pra uma mistura de fatores biológicos, psicológicos e sócio-culturais nos motivos que fazem alguém ser gay. Mas todas são unânimes ao afirmar que ser gay não é ideologia, crença ou frescura de meninos malcriados. Independentemente do país, cultura e religião, as estatísticas se repetem mostrando que uma parcela pouco abaixo de 10% da população prefere parceiros do mesmo sexo. Há relatos de práticas tão diferentes com os gregos ou comunidades isoladas de Papua Nova Guiné. Isso faz dos relacionamentos gays um fato tão antigo quanto a civilização humana. E nos obriga a reconhece-los como parte do convívio em sociedade. "A homossexualidade não precisa ser explicada. Ela apenas existe", escreveu Colin Spencer no livro :
"Homossexualidade: Uma História".