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Ano de 1969. Uma semana após o Homem pisar na lua pela primeira vez, os freqüentadores do Stonewall Inn, pequeno bar localizado no Greenwich Village em Nova York (EUA), nem imaginavam que também entrariam para a História.

Em 27 de junho, o bar destinado ao público homossexual foi palco de uma batida policial. Embora o bar não fosse assumidamente gay, o que era proibido naquela época, a maior parte de seus clientes fazia parte deste segmento. Prisões e batidas policiais aconteciam com frequência em bares freqüentados por gays em Los Angeles e Nova York. Em Stonewall, porém, foi a primeira vez que os gays reconheceram a opressão que sofriam e tomaram conhecimento de que aquilo precisava ser mudado.

Em um protesto violento, cerca de 400 pessoas revoltaram-se contra as prisões que estavam sendo feitas em Stonewall. Na noite seguinte, mais um grupo de pessoas reuniu-se em frente ao bar e protestou contra a ação da polícia. Após os incidentes, por dias seguidos, foram publicados em diversos jornais, como o The New York Times, artigos sobre a revolta e, senão apoiando, não atacando os homossexuais. Alguns, especialmente o Village Voice, deram todo o apoio aos rebelados.

Depois de alguns dias, membros de duas ONGs, (Mattachine Society, voltada para os gays e Daughters of Bilitis, voltada somente para as lésbicas) reuniram-se próximo dali, em Washington Square, num protesto que contou com cerca de 500 pessoas e foi considerada a primeira “Reunião da Força Gay (Gay Power)”.

A Mattachine Society foi uma ONG fundada em Los Angeles, em 1951 e tinha o objetivo de educar o público sobre a homossexualidade, dar assistência aos gays e ajudá-los a tratar de problemas como discriminação e injustiças, que eram causados devido o conservadorismo da sociedade. Era grande o número de homossexuais que se sentiam injustiçados perante a lei. Já a Daughter of Bilitis foi fundada em 1955, em São Francisco e teve seu nome retirado do livro “Canções de Bilitis” do autor francês Pierre Louy, que continha poemas que relatavam histórias de amor entre mulheres. A proposta da entidade era proporcionar às lésbicas um local de encontro fora dos bares, além de ajudá-las e instruí-las a reivindicarem seus direitos civis. Mas nenhuma das duas jamais tivera uma atuação tão às claras como naquele ano. A multidão de gays, lésbicas e travestis também voltou mais organizada, com uma atitude mais política, e alguns começaram a pichar frases nas vitrines e nas paredes, reclamando direitos iguais. Outros gritavam exigindo o fim das batidas nos bares gays. Novamente a multidão atirou pedras e garrafas em direção aos policiais e novamente a polícia investiu contra os manifestantes.

No terceiro dia, um domingo, as coisas pareciam ter voltado ao normal e o bar Stonewall foi reaberto. Seus clientes habituais voltaram, a polícia os deixou em paz por um tempo e os jornais acabaram se ocupando de outros assuntos. Mas na verdade tudo havia mudado. A partir daquele dia aqueles gays lésbicas e travestis perceberam que nunca iriam ser aceitos pela sociedade se ficassem apenas esperando e dependendo de sua boa vontade. A rebelião mostrou a eles que a atitude que deveria ser tomada era a do enfrentamento. O discurso mudou. Nada mais de pedir para ser aceito: era preciso exigir respeito.

A primeira Parada aconteceu em Nova York, um ano após o ocorrido. Stonewall, então, virou sinônimo de libertação sexual para o público homossexual. Muitas outras Paradas se seguiram a essa, em Washington, San Francisco e outras capitas dos Estados Unidos e do mundo. Já no Brasil, o processo foi mais longo. Apenas uma década depois, em 1978 seria criado o primeiro grupo gay, o paulistano Somos, que “abriu as portas” para outros grupos de apoio aos homossexuais. A década de oitenta chegou e de certa forma, ajudou o número de grupos de homossexuais a crescer, pois foi nessa época que surgiu a AIDS e suas adversidades. Estes grupos gays foram pioneiros na luta contra a doença – que, hoje sabemos, atinge todas as pessoas.

Hoje, o Dia Mundial do Orgulho Gay é comemorado em 28 de junho em mais de 140 países. Em homenagem ao “dia da batida policial” no Stonewall, aconteceram este ano – só no Brasil – 40 Paradas Gays, de maio a setembro, concentrando-se em junho. Inclui-se nessa lista a Parada do Orgulho GLTB de São Paulo, atualmente a maior do mundo, com um público estimado em 2 milhões e meio de pessoas. Ano passado, até o presidente Lula se manifestou: “A importância das paradas, que vem se espalhando pelo país e pelo mundo, é exatamente dar visibilidade aos homossexuais, bissexuais e transgêneros, que por muitos séculos não puderam se expor, muito menos reivindicar seus direitos como qualquer outro cidadão. A sociedade brasileira tem se sensibilizado com a luta pela visibilidade da diversidade sexual. Como diz Milton Nascimento: ‘Qualquer maneira de amor vale a pena. Qualquer maneira de amor vale amar’.” Foi a primeira vez que um presidente da República reconheceu as Paradas Gays




AQUELA NOITE



Eric Marcus : O testemunho de quem estava lá...

“O lugar atraía gente bem diferente. Tinha drag queens, um bando de estudantes, uns mais novos, uns mais velhos, homens de negócios. Era um lugar interessante. Eu sempre encontrava meus amigos no Stonewall. Havia uma pista de dança, uma jukebox, algumas mesas. Tinha também uma área nos fundos, o que naquele tempo significava que outro bar funcionava lá atrás.

Na noite da batida, alguns homens de terno e gravata entraram e deram umas voltas pelo bar. Tava na cara que eram policiais. De repente, as luzes se acenderam, as portas foram trancadas e todos foram impedidos de sair até os policiais decidirem o que iam fazer. Eu estava ansioso, mas sem medo. Todo mundo estava ansioso, sem saber se seríamos todos presos ou o quê.

Dez ou quinze minutos depois, nos mandaram sair, em fila. Pediram a identidade de todo mundo. Quem tivesse sem, ou fosse menor de idade – e todas as drags – era retido e incarcerado temporariamente no roupeiro. Praticamente um armário. Mal sabia a polícia a ironia desse simbolismo. Mas eles descobriram rapidinho.

O povo ia sendo libertado, mas permanecia do lado de fora do bar. Ninguém ía embora. Todos esperavam os amigos saírem. As pessoas que passavam ali pela Christopher Street, que era uma rua bem movimentada na época, também começaram a se juntar na frente do bar. A multidão crescia e crescia.

Eu fiquei pra olhar também. Alguns gays que saíam do bar faziam uma reverência à multidão e seus amigos gritavam e assobiavam. Era bem divertido. Quando todo mundo que seria liberado saiu é que as coisas começaram a ficar tensas, Os que foram presos - na maioria gente travestida, e funcionários do bar - foram levados a um camburão estacionado na calçada, bem na frente do bar. Mas foram deixados lá, desguardados pela polícia, que entrou de volta no bar. Eles simplesmente desceram do camburão e saíram, pra alegria da multidão. Aquelas pessoas foram deixadas soltas deliberadamente, sem sombra de dúvida. Parecia haver alguma espécie de acordo entre a polícia e o pessoal do bar, de forma que eles não queriam realmente prender todo mundo, mas apenas parecer que estavam prendendo.

Quando todos saíram e os prisioneiros foram embora,a multidão ficou. Eu não sei exatamente por que, mas havia um misto de curiosidade e preocupação com o que havia acontecido. Até que algumas pessoas começaram a jogar moedas na calçada, na frente do Stonewall. E alguém jogou uma pedra, que quebrou uma das janelas do segundo andar. Todo mundo fez um “oohhhh” de espanto.

Pra mim, foi como se tivessem cutucado a ferida de um ódio que vinha crescendo há muito tempo a esse tipo de abordagem injusta e preconceituosa. Não era minha culpa que muitos bares onde eu podia encontrar outros gays eram de propriedade do crime organizado. Graças ao sistema de discriminação oficial por parte das autoridades e da corrupção da polícia (daí as moedas atiradas no início [e a frase pichada na frente do bar no dia seguinte ao tumulto: “Proibição aos gays corrompe os policiais e alimenta a máfia”], estes eram os únicos bares onde era permitido servir homossexuais. Nada disso era culpa minha.

A tensão aumentou. Algumas outras pedras voaram. Alguém arrancou um parquímetro e quebrou o vidro da frente do bar. Outro pegou uma lata de lixo, colocou fogo e a atirou lá dentro. Os policiais usaram um extintor para apagar o fogo e depois o usaram na multidão para mantê-la à distância. Foi aí que o tumulto começou.”

Trecho do livro Making History, de Eric Marcus (p. 200-201)

Tradução: Deco Ribeiro