Transexualidade


(Texto escrito em português de Portugal)

INTRODUÇÃO


Para muitas pessoas, a sua identidade de género – a identificação psicológica como homem ou mulher – não corresponde ao sexo que lhes foi atribuído e registado no assento de nascimento. O sexo atribuído é aquele que é inferido, geralmente, por um exame sumário da genitália, ignorando-se outros caracteres secundários, ou factores genéticos, endócrinos, ou neurológicos. As estimativas variam, mas estima-se que um “homem” em cada 12 000i [1] sente que é uma mulher e uma menor proporção de “mulheres” sente que é um homem (embora existam estudos que sugiram ou o contrário, ou um equilíbrio entre as proporções homem-mulher); ou seja, sentem que o sexo que lhes foi atribuído à nascença não está de acordo com a sua identidade de género. Estas são pessoas transexuaisii, ou seja, homens transexuais (as pessoas com uma identidade de género masculina, e cujo sexo atribuído à nascença foi o feminino, também conhecidos como FtM – do inglês “Female to Male”, ou seja, o sentido em que fazem a sua transição de género) e mulheres transexuais (as pessoas com uma identidade de género feminina, e cujo sexo atribuído à nascença foi o masculino, também conhecidos como MtF – do inglês “Male to Female”). Às pessoas não-transexuais, também é dado o nome de cissexuais.
Esta convicção profunda e persistente de que a identidade de género (a auto-identificação como mulher ou homem) não está de acordo com a aparência física e/ou anatomia (fenótipo físico), quer completamente, quer parcialmente, é conhecida por disforia de género ou perturbação da identidade de género [2]. O transexualismo ou transexualidadeiii é a forma mais extrema da perturbação da identidade de género, em que as pessoas se identificam persistentemente como membros do sexo oposto ao que lhes foi atribuído ao nascimento e necessitam de adaptar a sua aparência física à sua identidade de género através de terapias hormonais e/ou procedimentos cirúrgicos (que não se limitam à cirurgia genital). Algumas pessoas sentem esta incompatibilidade entre identidade e corpo desde a infância (transexualidade primária, ou clássica), enquanto que outras sentem-na mais tarde (transexualidade secundária). Quando a identificação com o sexo oposto ao que foi atribuído ao nascimento é contínua, é improvável que ela desapareça, mas podem passar anos até que a pessoa aceda, por vários motivos, ao processo transicional (conhecido como “transição”) partindo do sexo atribuído ao nascimento para o que está de acordo com a sua identidade de género.
A desidentificação com o sexo que foi atribuído ao nascimento e a identificação com o sexo oposto não se fazem apenas a nível corporal, embora as pessoas transexuais se sintam obviamente desconfortáveis com o seu corpo. É pelo menos tão importante para elas a percepção do seu género pelos outros, uma vez que a identificação como membro de um sexo que não corresponde à identidade de género leva a formas de tratamento e expectativas de comportamento incongruentes com essa identidade. Aliás, é muitas vezes negada às pessoas transexuais a expressão da sua identidade real (como, por exemplo, através de restrições ao exercício de determinadas actividades), dificultando a sua integração social e o desenvolvimento harmonioso da personalidade.
A identificação com o sexo oposto àquele que foi atribuído ao nascimento não passa pela sexualidade, nem tem matizes sexualizados. As pessoas transexuais podem ser heterossexuais (um homem transexual que se sente atraído por mulheres, ou uma mulher transexual que se sente atraída por homens), gays (homem transexual que se sente atraído por outros homens), lésbicas (mulher transexual que se sente atraída por outras mulheres), bissexuais (homem ou mulher transexual que se sente atraído, ou atraída, por ambos os sexos), ou até assexuais (homem ou mulher transexual sem sexualidade).
O termo transgénero foi introduzido em 1979 por Virginia Prince nos EUA, para se referir a pessoas como ela que, apesar de viverem a tempo inteiro como membros do sexo oposto àquele que lhes foi atribuído ao nascimento, não desejavam recorrer à cirurgia genital, também conhecida como cirurgia de reatribuição de sexo (a cirurgia que aproveita os tecidos genitais existentes e os converte na genitália do outro sexo, sendo dada atenção à funcionalidade e à parte estética) para se enquadrarem neste género [3, 4]. A lógica do termo seria a de que, enquanto que os travestis (pessoas que se vestem com roupas ou usam objectos do sexo oposto, mas nunca modificam o seu corpo, também conhecidos como crossdressers) alteram episodicamente as roupas que usam, de modo a estarem de acordo com as usadas pelo sexo oposto, e as pessoas transexuais (de acordo com a definição da época) alterariam permanentemente os seus genitais, as pessoas transgénero fariam uma alteração a longo termo do seu corpo, mas sem recorrer à cirurgia genital.
A partir dos anos 90, o termo transgénero passou a ter um significado diferente, sobretudo devido à utilização por ele feito por Leslie Feinberg [5]. Para Feinberg, transgénero é um chapéu de chuva para representar a aliança política entre todas as pessoas cuja identidade de género, ou maneira como exprimem essa identidade, não está de acordo com as normas sociais típicas para homens e mulheres, e que devido a isso são oprimidas pela sociedade [6]. Assim, actualmente, o termo transgénero é usado como um termo genérico que inclui não só as pessoas transgénero no sentido dado por Prince, mas também as pessoas transexuais, os travestis (crossdressers), as pessoas andróginas, mulheres com aspecto masculino, homens com aspecto feminino, e as pessoas intersexuais (“hermafroditismo”).
No presente, todas as pessoas com disforia de género na forma mais extrema, e que já vivem, ou pretendem viver, no papel social do género oposto àquele que lhes foi atribuído ao nascimento, são consideradas transexuais, não sendo relevante se já se iniciou o processo transitório ou não. Também não é relevante que a pessoa ainda não tenha feito, ou não planeie fazer, a cirurgia genital. Às pessoas transexuais que ainda não efectuaram a cirurgia, mas que a planeiam efectuar, costuma-se chamar pré-operativas (pré-op), a quem já a fez pós-operativa (pós-op), e a quem ainda não a fez não-operativa (não-op). Assim, às pessoas como Virginia Prince, anteriormente consideradas transgéneros, chama-se agora transexuais.
Apesar da frequente confusão entre os termos, uma pessoa pré-operativa ou não-operativa é transexual, e não travesti, um termo cujo significado tem vindo a ser deturpado nos média. Muitas pessoas transexuais acham discriminatório, ou até ofensivo, que sejam usadas escalas classificatórias em relação ao seu estatuto cirúrgico.
De realçar que identidade de género e orientação sexual são dois conceitos completamente independentes, como referido anteriormente.
O critério de relevância legal correspondente à orientação sexual é a "identidade de género". Embora apareçam referências na Constituição e legislação portuguesas à orientação sexual, que alguns juristas interpretam como sendo extensivas à identidade de género por ter sido esse o espírito que moveu o legislador, estas duas noções são, como dito anteriormente, formalmente distintas.

TIPOLOGIA DAS PESSOAS TRANSEXUAIS


A imagem popular do que é a transexualidade está, muitas vezes, bastante longe da realidade. A transexualidade não é um fetiche, nem as pessoas transexuais se dedicam preferencialmente à prostituição, ou são promíscuas. Geralmente, e desde que a integração social o permita – particularmente a laboral – as pessoas transexuais tendem a adoptar os estilos de vida mais comuns, tentando uma assimilação social completa. A imagem de que as pessoas transexuais só vivem em discotecas, bares ou nightclubs está muito distante da realidade. Existem pessoas transexuais que ocupam cargos de professores/as, advogados/as, cientistas, deputados/as, desportistas, e muitas outras profissões que nada têm a ver com a imagem comum da transexualidade.
As pessoas que tentam a assimilação social pertencem a uma comunidade a que geralmente se dá o nome de “oculta” ou “invisível”, justamente porque não divulgam, a nível social, a sua condição como transexuais. Tirando possivelmente algumas pessoas próximas, como amigos/as, parceiros/as, familiares, médicos ou entidades patronais, ninguém à sua volta sabe que se encontra perante uma pessoa transexual. Este é justamente o maior segmento da comunidade transexual.
A comunidade “visível”, e da qual é inferida a imagem mais comum do que é transexualidade, é irregular e não-representativa de toda a comunidade transexual. Mesmo esta comunidade tende a ser pouco conhecida, e incompreendida.
Retirando, aliás, o facto de um desalinhamento entre a identidade de género e o sexo atribuído à nascença, a população transexual tende a ser socialmente muito parecida, senão igual, à população cissexual, apesar de toda uma percepção errónea de que estas populações seriam diametralmente opostas.

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